A VISTA DO AMOR, QUE TEVE O POETA A ESTA DAMA, COMO SE COLHE É A SEGUINTE OBRA HUM TESTEMUNHO DA SUA GENEROZIDADE: POIS LHE RECUSA OS SEUS CONVITES, ACONSELHANDO-A A SOFFRER SEU ESPOSO. NEM OS SEUS GALANTEOS FORAM COM PESSOA PROHIBIDA.

By Gregório de Matos Guerra

Vós casada, e eu vingado,

todo o meu coração sente,

mas a vingança presente

mais que o agravo passado:

o agravo já perdoado

pelas desculpas, que dais,

menos dor me ocasionais

por ser contra meu respeito

que, o que contra vós é feito,

força é, que doa mais.

Chorar vosso casamento

é sentir a minha dor

e agora me obriga Amor

a sentir vosso tormento:

vosso descontentamento

do meu mal distância encerra,

que no meu coração não erra

censurando um, e outro sim,

pois de vós vai tanto a mim,

como vai dos céus a terra.

Um só coração assestam

os pesares, de quem ama,

mas os pesares da Dama

a dois corações molestam:

se duas vidas infestam

males, de que estais sentida,

com razão, prenda querida,

dois prantos faço em comum.

pela minha vida um,

outro pela vossa vida.

Levai prudenre, e sagaz

esse cargo, essa pensão,

porque o erro da eleição

consigo outros erros traz:

se é de remédio incapaz

o erro do casamento,

dissimule o sofrimento

esse erro: porque maior

não faça o erro de amor

erros do arrependimento.