A VITÓRIA DO ESPIRITO

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Era uma preta, funeral mesquita

Abandonada aos lobos e aos leopardos

Numa floresta lúgubre e esquisita.

Engalanava-lhe as paredes frias

Uma coroa de urzes e de cardos

Coberta em pálio pelas laçarias.

Uma vez, aos lampejos derradeiros

Das irisadas, vespertinas velas,

Feras rompiam tojos e balseiros.

E pelas catacumbas desprezadas,

Mochos vagavam como sentinelas,

Em atalaia às gerações passadas!

Um crepúsculo imenso nunca visto

Tauxiava o Céu de grandes vidros roxos

Da mesma cor da túnica de Cristo.

Fulgia em tudo uma estriação violeta

E um violáceo clarão banhava os mochos

Que em torno estavam da mesquita preta.

Já na eminência da amplidão sidérea

Como uma umbela, se desenrolava

A esteira astral da retração etérea.

Os astros mortos refulgiam vivos

E a noute, ampla e brilhante, rutilava

Lantejoulada de opalinos crivos.

Súbito alguém, o passo constrangendo,

Parou em frente da mesquita morta...

— Um vento frio começou gemendo.

Era uma viúva, e o olhar errante, a viúva

Em passo lento, foi transpondo a porta,

Eternamente aberta ao sol e à chuva.

A Lua encheu o espaço sem limites

E, dentro, nos altares esboroados,

Foram caindo como estalactites

Sobre o oiro e a prata das alfaias priscas

Um dilúvio de fósforos prateados

E uma chuva doirada de faíscas.

Fora, entretanto, por um chão de onagras

Vinha passeando como numa viagem

Um grupo feio de panteras magras.

E havia no atro olhar dessas panteras

Essa alegria douda da carnagem

Que é a alegria única das feras.

E ardendo na impulsão das ânsias doudas

E em sevas fúrias infernais ardendo

Todas as feras, as panteras todas

Avançam para a viúva desvalida

E raivosas, contra ela, arremetendo,

Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.

Morria a noute. As flâmulas altivas

Do sol nascente erguiam-se vermelhas,

Como uma exposição de carnes vivas,

E iam cair em pérolas de sangue

Sobre as asas doiradas das abelhas,

E sobre o corpo da viúva exangue.

A Natureza celebrava a festa

Do astro glorioso em cantos e baladas

— O próprio Deus cantava na floresta!

Nos arvoredos rejuvenescidos,

Estrugiam canções desesperadas

De misereres e de sustenidos.

Além, entanto, na redoma clara

Que envolve a porta da região etérea,

O espírito da viúva se quedara

Ao contemplar dessa fulgente porta

E dessa clara e alva redoma aérea

No desfilar de sua carne morta

A transitoriedade da matéria!