Abelhas

By João da Cruz e Sousa

Gotas de luz e perfume,

Leves, tênues, delicadas,

Acesas no doce lume

De purpúreas alvoradas.

Pingos de ouro cristalinos

Alados na esfera, ondeando,

Dispersos por entre os hinos,

Da natureza vibrando.

Sorrisos aéreos, soltos,

Flavas asas radiantes,

Que levam consigo envoltos

Da aurora os sóis fecundantes.

Da aurora que a primavera

Faz cantar, brota no peito

E floresce em folhas de hera

O coração satisfeito.

Essa aurora produtiva

Do amor soberano e eterno,

Que é nas almas força viva

E nas abelhas falerno.

Nas doudejantes abelhas

Que dentre flores volitam

E do sol entre as centelhas

Resplendem, fulgem, palpitam.

Zumbem, fervem nas colmeias

E rumorejam no enxame

Pelas flóridas aleias

Onde um prado se derrame.

Assim mesmo pequeninas

E quase invisíveis, quase,

Com as suas asitas finas,

De etérea de fluida gaze.

Ah! quanto são adoráveis

Os favos que elas fabricam!

Com que graças inefáveis

Se geram, se multiplicam.

Nos afãs industriosos

Que enlevo, que encanto vê-las

Com seus corpos luminosos

D’iriante brilho d’estrelas.

E nas ondas murmurosas

Dos peregrinos adejos

Vão dar ao lábio das rosas

O mel doirado dos beijos.