ACONSELHANDO A UM CABELEIREIRO QUE DEBUXAVA E TOCAVA BANDOLIM, QUE NÃO CONTINUAS...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Pois que o talento inquieto

Até em poesia provas,

E queres às mais desgraças

Ajuntar desgraças novas;

Pois que em galantes cantigas

Teu rival puseste raso,

E coroado de trovas

Vás entrando no Parnaso;

Quero em trovas avisar-te.

Que ha baixios n’esta barra;

Vou ser pregador trovista,

Vou ser um novo Bandarra;

A ocupação do poeta

É nobre por natureza;

Mas todo o ofício tem ossos,

E os deste são a pobreza:

Os dentes do bom Camões

Sejam fieis testemunhas;

Muitas vezes esfaimados

Não acharam senão unhas:

Depois que seus frios olhos

Se fecharam no hospital,

Logo as filhas da memória

Lhe ergueram busto imortal:

De que serve honra tardia?

Bem sei, que o rifão vem torto;

Mas faz lembrar a cevada,

Que se deu ao asno morto:

Só as musas o choraram;

E o enterro devia ser

Como hoje nos pinta o Lobo

O do João Xavier.

Homero, o divino Homero,

Honra de antigas idades,

Por cujos inúteis ossos

Brigaram sete cidades;

Doces versos recitando,

Pela Grécia discorria;

Tinha os tesouros de Apolo,

E esmola aos homens pedia.

Mas se de autores antigos

Tens tido pouco exercício,

Eu te aponto um bem moderno,

E até do teu mesmo ofício:

Foi este o famoso Quita,

A quem triste fado ordena,

Que a fome lhe traga o pentem,

E da mão lhe tire a pena:

Enquanto na suja banca

Pobre tarefa tecia,

Seu espírito sublime

Sobre o Parnaso se erguia:

Cozendo sobre o joelho

Em dura, falsa caveira,

A sua alma conversava

Com Bernardes, e Ferreira:

Mil vezes travessas musas

Da baixa obra o desviam;

E mostrando-lhe o tinteiro,

Pós, e banha lhe escondiam:

Mas de que servem talentos

A quem nasceu sem ventura?

Vale mais, que cem sonetos,

A pior penteadura.

Amigo, vamos errados;

Escolhemos muito mal;

É o fado dos poetas

Não professarem real:

Pega no pardo baralho,

E sobre a cama assentado,

Fisga as biscas conhecidas

Ao parceiro descuidado:

Matando boçais tafuis,

Vai mexendo os papelinhos,

Nem poupes no cadafalso

As gargantas dos sobrinhos.

Em lhe vendo uma de seis,

Arma-lhe os laços viscosos;

Antes que lhe caia a xina

Na ceira dos laparosos:

Imita ondados cabelos

C’o rubro lápis na mão;

Estas pinturas dão xina,

As da poesia, não:

Se em roda de louras ninfas

Giram em torno teus ais,

Enquanto lhes deres versos.

Acharás sempre vestais:

Falo como experimentado;

Falo com peito sincero;

Pode uma vara de fita,

Mais que a Ilíada de Homero.

No sonoro bandolim

Fortuna as armas te deu;

Não ha dama que resista

Á moda do Melibéu:

Toca-lhe mil contradanças;

Mas se não tiverem dom,

Entre elas não sevandijes

O Fidalgo Cotilhom.

Nestas cousas é que eu creio;

Poesia é mal fadada;

Assenta, amigo Luiz,

Que nunca serviu de nada:

Poucas damas a conhecem;

Se a pedem, e se a festejam,

Gostam do que não entendem,

Pedem o que não desejam:

Inda que por moda querem,

Que lhes repitam versinhos,

Tem por modas de mais gosto

Convulsões, e josezinhos:

Uma Vênus me pediu,

Por quem inda eu hoje peno.

Que lhe fizesse um soneto,

Inda que fosse pequeno:

Dinheiro, invicto dinheiro.

Só em ti é que eu me fundo;

Tens o direito da força,

És o tirano do mundo.

Amigo, escolhe um paralta,

Corpo esbelto, perna tesa,

O chapéu tocando as nuvens,

As fivelas à maltesa;

Ornem-lhe louros canudos,

Pendentes com igualdade,

Tenras faces, onde moram

A saúde, e a mocidade;

Chegue à boca rubicunda

Cheiroso lenço anilado;

Dê bilhetinho discreto,

De uma novela furtado;

Põe da outra parte um ginja,

Fivela de ouro no pé,

Bom vestido de lemiste,

Boa meia grudifé;

Com óculos no nariz.

Mas com a pena na mão,

Assinando vinte letras

Para Londres, e Amsterdão;

E dize-me, qual assentas,

Que será o mais querido?

Aposto que as damas todas

Cuidam que o velho é Cupido?

Amigo, tenho acabado

O meu comprido sermão;

Preguei-te as altas verdades,

Que trago no coração:

Abre mão das poesias.

Que nenhum préstimo tem;

Ê cuida em sólidos meios

De ganhar algum vintém:

Se dizes, que contra os versos,

Em verso uma carta ordeno,

E que aqui me contradigo.

Praticando o que condeno;

A teu forçoso argumento

Respondo com frei Tomás;

Faze o que o pregador diz,

Não faças o que ele faz.