ACONSELHANDO A UM CABELEIREIRO QUE DEBUXAVA E TOCAVA BANDOLIM, QUE NÃO CONTINUAS...
Pois que o talento inquieto
Até em poesia provas,
E queres às mais desgraças
Ajuntar desgraças novas;
Pois que em galantes cantigas
Teu rival puseste raso,
E coroado de trovas
Vás entrando no Parnaso;
Quero em trovas avisar-te.
Que ha baixios n’esta barra;
Vou ser pregador trovista,
Vou ser um novo Bandarra;
A ocupação do poeta
É nobre por natureza;
Mas todo o ofício tem ossos,
E os deste são a pobreza:
Os dentes do bom Camões
Sejam fieis testemunhas;
Muitas vezes esfaimados
Não acharam senão unhas:
Depois que seus frios olhos
Se fecharam no hospital,
Logo as filhas da memória
Lhe ergueram busto imortal:
De que serve honra tardia?
Bem sei, que o rifão vem torto;
Mas faz lembrar a cevada,
Que se deu ao asno morto:
Só as musas o choraram;
E o enterro devia ser
Como hoje nos pinta o Lobo
O do João Xavier.
Homero, o divino Homero,
Honra de antigas idades,
Por cujos inúteis ossos
Brigaram sete cidades;
Doces versos recitando,
Pela Grécia discorria;
Tinha os tesouros de Apolo,
E esmola aos homens pedia.
Mas se de autores antigos
Tens tido pouco exercício,
Eu te aponto um bem moderno,
E até do teu mesmo ofício:
Foi este o famoso Quita,
A quem triste fado ordena,
Que a fome lhe traga o pentem,
E da mão lhe tire a pena:
Enquanto na suja banca
Pobre tarefa tecia,
Seu espírito sublime
Sobre o Parnaso se erguia:
Cozendo sobre o joelho
Em dura, falsa caveira,
A sua alma conversava
Com Bernardes, e Ferreira:
Mil vezes travessas musas
Da baixa obra o desviam;
E mostrando-lhe o tinteiro,
Pós, e banha lhe escondiam:
Mas de que servem talentos
A quem nasceu sem ventura?
Vale mais, que cem sonetos,
A pior penteadura.
Amigo, vamos errados;
Escolhemos muito mal;
É o fado dos poetas
Não professarem real:
Pega no pardo baralho,
E sobre a cama assentado,
Fisga as biscas conhecidas
Ao parceiro descuidado:
Matando boçais tafuis,
Vai mexendo os papelinhos,
Nem poupes no cadafalso
As gargantas dos sobrinhos.
Em lhe vendo uma de seis,
Arma-lhe os laços viscosos;
Antes que lhe caia a xina
Na ceira dos laparosos:
Imita ondados cabelos
C’o rubro lápis na mão;
Estas pinturas dão xina,
As da poesia, não:
Se em roda de louras ninfas
Giram em torno teus ais,
Enquanto lhes deres versos.
Acharás sempre vestais:
Falo como experimentado;
Falo com peito sincero;
Pode uma vara de fita,
Mais que a Ilíada de Homero.
No sonoro bandolim
Fortuna as armas te deu;
Não ha dama que resista
Á moda do Melibéu:
Toca-lhe mil contradanças;
Mas se não tiverem dom,
Entre elas não sevandijes
O Fidalgo Cotilhom.
Nestas cousas é que eu creio;
Poesia é mal fadada;
Assenta, amigo Luiz,
Que nunca serviu de nada:
Poucas damas a conhecem;
Se a pedem, e se a festejam,
Gostam do que não entendem,
Pedem o que não desejam:
Inda que por moda querem,
Que lhes repitam versinhos,
Tem por modas de mais gosto
Convulsões, e josezinhos:
Uma Vênus me pediu,
Por quem inda eu hoje peno.
Que lhe fizesse um soneto,
Inda que fosse pequeno:
Dinheiro, invicto dinheiro.
Só em ti é que eu me fundo;
Tens o direito da força,
És o tirano do mundo.
Amigo, escolhe um paralta,
Corpo esbelto, perna tesa,
O chapéu tocando as nuvens,
As fivelas à maltesa;
Ornem-lhe louros canudos,
Pendentes com igualdade,
Tenras faces, onde moram
A saúde, e a mocidade;
Chegue à boca rubicunda
Cheiroso lenço anilado;
Dê bilhetinho discreto,
De uma novela furtado;
Põe da outra parte um ginja,
Fivela de ouro no pé,
Bom vestido de lemiste,
Boa meia grudifé;
Com óculos no nariz.
Mas com a pena na mão,
Assinando vinte letras
Para Londres, e Amsterdão;
E dize-me, qual assentas,
Que será o mais querido?
Aposto que as damas todas
Cuidam que o velho é Cupido?
Amigo, tenho acabado
O meu comprido sermão;
Preguei-te as altas verdades,
Que trago no coração:
Abre mão das poesias.
Que nenhum préstimo tem;
Ê cuida em sólidos meios
De ganhar algum vintém:
Se dizes, que contra os versos,
Em verso uma carta ordeno,
E que aqui me contradigo.
Praticando o que condeno;
A teu forçoso argumento
Respondo com frei Tomás;
Faze o que o pregador diz,
Não faças o que ele faz.