ADOECENDO MARIANNA GALANTEA O POETA SUA ENFERMIDADE.
Enfermou Clóri, Pastôres,
por ter de humana um só es.
que também padece males,
quem logra em si tantos bens.
Clóri, digo, aquêle extremo
de formosura cruel,
que a quantos vê, tira a vida,
hoje prostrada se vê.
Triunfa agora o achaque,
o que nunca fez ninguém,
porque levar Clóri à cama,
o mal só agora fêz.
Dizem, que adoeceu Clóri,
por lhe faltar não sei quê,
eu não sei, que faltar possa,
a quem tão perfeita é.
Mover dúvidas podia
esta doença fazer,
porque haver em Clóri faltas
grande causa é de as morrer.
Nunca quis Clóri sangrar-se
nos bracos, senão nos pés,
que de puro soberana,
não dá seu braço a torcer.
Mostrou seu pé ao Barbeiro,
que com suspensão cortês,
inda que água era mui pouca,
não podia tomar pé.
Água fria pediu logo
com brevidade, porque
com a quente se podia
tanta neve derreter.
Então vadio o Barbeiro
com Clóri quis entender
que como a colheu descalça,
dizem, que a picara bem.
Desmaiou Clóri sentida,
dando bem a perceber,
que a tal sangria lhe custa
gôtas de sangue esta vez.
Com sal na bôca diverte
o desmaio, mas eu sei,
que bôca tão engraçada
nenhum sal há de mister.
Que foi supérfluo o remédio
do sal, não duvide alguém,
porque quem é luz do mundo,
sal da terra deve ser.
Logrou bem o sangrador
privilégios de Moisés,
da pedra não, mas de um jaspe
fez também sangue correr.
Agora chegai, formosas,
nestas côres aprender
o melhor branco da neve,
do coral o mais fiel.
Chegai a ver êstes mares,
onde em crescida maré
dentre a neve matizada
belos rubis colhereis.
Tôdas, as que amor lhe tinham,
parece, que ódio lhe tem
pelo muito, que desejam
chegar seu sangue a beber.
Mas todos ficam em branco,
quando vêem convalescer
a Clóri do seu desmaio,
e da doença também.