ADOECENDO MARIANNA GALANTEA O POETA SUA ENFERMIDADE.

By Gregório de Matos Guerra

Enfermou Clóri, Pastôres,

por ter de humana um só es.

que também padece males,

quem logra em si tantos bens.

Clóri, digo, aquêle extremo

de formosura cruel,

que a quantos vê, tira a vida,

hoje prostrada se vê.

Triunfa agora o achaque,

o que nunca fez ninguém,

porque levar Clóri à cama,

o mal só agora fêz.

Dizem, que adoeceu Clóri,

por lhe faltar não sei quê,

eu não sei, que faltar possa,

a quem tão perfeita é.

Mover dúvidas podia

esta doença fazer,

porque haver em Clóri faltas

grande causa é de as morrer.

Nunca quis Clóri sangrar-se

nos bracos, senão nos pés,

que de puro soberana,

não dá seu braço a torcer.

Mostrou seu pé ao Barbeiro,

que com suspensão cortês,

inda que água era mui pouca,

não podia tomar pé.

Água fria pediu logo

com brevidade, porque

com a quente se podia

tanta neve derreter.

Então vadio o Barbeiro

com Clóri quis entender

que como a colheu descalça,

dizem, que a picara bem.

Desmaiou Clóri sentida,

dando bem a perceber,

que a tal sangria lhe custa

gôtas de sangue esta vez.

Com sal na bôca diverte

o desmaio, mas eu sei,

que bôca tão engraçada

nenhum sal há de mister.

Que foi supérfluo o remédio

do sal, não duvide alguém,

porque quem é luz do mundo,

sal da terra deve ser.

Logrou bem o sangrador

privilégios de Moisés,

da pedra não, mas de um jaspe

fez também sangue correr.

Agora chegai, formosas,

nestas côres aprender

o melhor branco da neve,

do coral o mais fiel.

Chegai a ver êstes mares,

onde em crescida maré

dentre a neve matizada

belos rubis colhereis.

Tôdas, as que amor lhe tinham,

parece, que ódio lhe tem

pelo muito, que desejam

chegar seu sangue a beber.

Mas todos ficam em branco,

quando vêem convalescer

a Clóri do seu desmaio,

e da doença também.