AGORA COM A EXPERIÊNCIA DOS MALES, QUE PADECE A REPÚBLICA NESTAS ALTERAÇÕES, SE ...

By Gregório de Matos Guerra

Tratam de diminuir

o dinheiro a meu pesar,

que para a cousa baixar

o melhor meio é subir:

quem via tão alto ir,

como eu vi ir a moeda,

lhe prognosticou a queda,

como eu lha prognostiquei:

dizem, que o mandou El-Rei,

quer creiais, quer não creiais.

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Manda-o a força do fado,

por ser justo, que o dinheiro

baixe a seu valor primeiro

depois de tão levantado:

o que se vir sublimado

por ter mais quatro mangavas,

hão de pesá-lo as oitavas,

e por leve hão de enjeitá-lo:

e se com todo este abalo

por descontentes vos dais,

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

As pessoas, que quem rezo,

hão de ser como o ferrolho,

val pouco tomado a olho,

val menos tomado a peso:

os que prezo, e que desprezo

todos serão de uma casta,

e só moços de canastra

entre veras, e entre chanças

com pesos, e com balanças

vão a justiçar os mais:

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Porque como em Maranhão

mandam novelos à praça,

assim vós por esta traça

mandareis o algodão:

haverá permutação,

como ao princípio das gentes,

e todos os contraentes

trocarão droga por droga,

pão por sal, lenha por soga,

vinhas por canaviais:

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Virá a frota para o ano,

e que leve vós agouro

senão tudo a peso de ouro,

a peso tudo de engano:

não é o valor desumano,

que a cada oitava se dá

da prata, que corre cá,

pelo meu fraco conceito,

mas ao cobrar fiel direito,

e oblíquo, quando pagais;

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Bem merece esta cidade

esta aflição, que a assalta,

pois os dinheiros exalta

sem real autoridade:

eu se hei de falar verdade,

o agressor do delito

devia ser só o aflito:

mas estão tão descansados,

talvez que sejam chamados

nesta frota, que esperais;

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.