AGRADECENDO ALGUNS PRATOS, QUE DESPERTAM A VONTADE DE COMER
Senhor, a dada perdiz,
Acerejada e fresquinha,
Veio emendar os estragos
Da enjoativa galinha:
Esta ave é sempre odiosa
A melancólicos dentes;
Faz lembrar últimos caldos
De já perdidos doentes;
É, além disto, um cruzado
Fugido do mealheiro;
Este meu mortal fastio
Custou rios de dinheiro:
Mas da vossa lauta mesa
Bocados medicinais
Foram tão bem aplicados,
Que me curaram de mais:
Venceu vosso cozinheiro
O tal fastio cruel;
Meu estômago já pede
Meças com frei Manuel:
Mas, senhor, vossa piedade
Vai ser-vos um dom fatal;
Quisestes fazer um bem,
Que redunda em vosso mal;
Fizestes nascer a fome,
E a fome pede mantença;
Se a deixais entregue a mim,
Pode morrer à nascença:
A vossa filha amparai;
Não é de peitos honrados
Pôr as suas criaturas
Na roda dos enjeitados.
Em soando às duas horas,
Sabei que esta cara minha
Tem longos, ávidos olhos.
Filos na vossa cozinha:
Eu não vou, porque inda fraco.
Indo arrostar ar delgado,
Antes de matar a fome,
Morreria constipado.