ALEGRIA E AGRADECIMENTO

By Laurindo José da Silva Rabelo

Do corpo os olhos mortos,

Senhor, temos em vida;

Porém na desabrida

Mágoa do mal atroz,

Celeste medicina

A nossa dor acalma;

Propícia aos olhos d’alma

A luz nos vem de vós.

A luz da inteligência,

Crescente pelo estudo,

Na claridade, em tudo

Que a outra vale mais.

A luz externa a tudo

Concede a providência;

A luz da inteligência

Só toca aos racionais;

E esta vos devemos.

O cego desvalido

Por vós hoje instruído

Calcula, escreve e lê,

Se em trevas tropeçando

Só tem no mundo escolhos,

Aos céus levanta os olhos,

E vê o que alma vê.

Monarca no poder,

Monarca na bondade,

Na dupla majestade

Com que sois rei, senhor,

Se tendes quem beijar-vos

A mão de rei deseje,

Mais tendes quem vos beije

A mão de benfeitor.

E quanto as obras vossas

Por Deus são estimadas,

Na esposa e prole amadas

Mais que patente está;

Nas ditas, na ventura

Que tendes no seu grêmio,

Dos bens que dais, em prêmio

Na terra, o céu vos dá.

Deste reinado a história

De glória e f’licidade,

Para adorar-vos há de

O mundo inteiro ler.

Hão de escrevê-la sábios

De méritos subidos,

Mas hão de os desvalidos

A mor parte escrever.

Então, também louvando

Voss’alma benfazeja,

Um cego que mais veja,

Dos muitos que aqui estão

(Talvez em prosa altiva,

Ou sublimado metro),

Dirá que o vosso cetro

Dos cegos foi bordão.