Alma do pensamento
O cimo da montanha, a cúspide escabrosa,
galgando entre esplendor, robusta e vigorosa,
a alma do pensamento,
alarga as grandes asas
por sobre o mar de brasas,
que o sol faz explodir do rubro olhar sangrento.
Ou mesmo embevecida
nas pompas o calor da fértil natureza,
nas tardes tropicais, na olímpica surpresa
vibrante desta vida;
nos cálidos fuzis flamívomos que douram
os montes — nos trovões que ríspidos estouram,
da vasta criação nessa alma irradiante,
em toda essa grandeza aérea e triunfante,
cantar o luxo e gala e as virgens do Oriente,
a pérola, o topázio, a opala e a ametista
cujo brilhar aceso e vivo e intermitente
produz fenomenais relâmpagos na vista.
Cantar em doce canto, em cântico melínfluo
o amor, a luz, o bem que os séculos investidos,
num ímpeto largífluo,
rebenta-lhe em cascata, a humanidade ungindo.
A alma do pensamento, essa alma admirável
que perde-se no caos supremo do Insondável,
deve rugir, voar e ser como nevasca,
não ter um só desmaio
mas irromper, vibrar, vibrar bem como o raio
que tudo quebra e lasca,
do côncavo horizonte intérmino e cerúleo,
do largo ventre cheio, inteiramente farto
de gases combustíveis,
matérias explosíveis,
ruindo com fragor no pinheiral mais harto,
no tronco mais hercúleo,
A alma do pensamento,
infrene como o vento,
deve emocionar-se aos risos de esperanças,
ao soluçar das mães, aos beijos das crianças,
à lúcida vanguarda imensa do trabalho,
saber amar a luz, saber usar do malho,
ser mãe do desgraçado e dar-lhe entre carinhos,
a força e o bem-estar — salubrizados vinhos,
em largas expansões de coisas que deslumbram,
assim como o que sai das trevas que o obumbram,
e pálido e abatido e presa da clorose,
vê músicas, vê sol — augusta apoteose...
Deve afinal rugir no estrondo da procela
e ter aquele som febril e clangoroso,
ardente e atroador e enorme e estriduloso
da trompa marcial — e ter também aquela
serena placidez e os brilhos das estrelas
conforme as vejo eu lá, como eu costumo vê-las,
nos páramos de além, na alegre incomensura,
por onde a inspiração translúcida fulgura!...
Quem não compreender
Os filtros dessa luz pujante de Igualdade
que anima a cada ser,
que forma essa razão da grande humanidade;
quem não compreender os nadas fascinantes
que atiram para a glória os cérebros possantes,
e que erguem do vulgar o busto de Camões,
quem não compreender as mil rutilações
dos céus, dos claros céus, tão límpidos e nus,
os fluidos aurorais, narcóticos da luz;
quem não compreender dos pássaros, das aves
o coro florestal, as músicas suaves,
o meigo cintilar travesso de uns idílios,
o trêmulo fulgir nevrálgico de uns cílios;
quem não compreender sequer o que é virtude,
tudo o que vem do berço e rola na ataúde,
e tudo o que sentimos dentro do organismo,
a forte emanação sulfúrea de um abismo,
e tudo o que tem ar, centelhas, lumes flavos,
os átomos viris e a força da matéria,
os mundos de vapor da abóbada sidérea
e tudo o que perfuma — as rosas, lírios, cravos
e tudo o que nos vibra
— o ser — fibra por fibra
e tudo o que vegeta e cresce e que se agita;
quem não compreender que o astros até palpita,
quem não compreender — herege do Ideal
que a flor, que a pedra vê, que tem artérias — sente toda
esta orquestração simpática e vital,
engana-se a si próprio, à própria carne mente,
porquanto a natureza é sempre exuberante,
nos mostra aberrações, prodígio a cada instante.
E tudo compreendia
o Cristo universal da poética harmonia.
E era assim valente, essa alma extraordinária,
gigântea, portentosa, ideal, tumultuária
do sol que desde os reis aos míseros dos lodos,
jorrava luz e seiva e forças para todos.
E tinha as explosões das pólvoras das minas,
as rubras gargalhadas,
as cóleras ferinas,
as grandes contorções da luta, ensanguentadas
os rábidos Vesúvios
fortes, apopléticos,
os fervidos dilúvios
dos sãos, descomunais e bons entusiasmos,
as doidas cabriolas,
saltos epiléticos,
a esplêndida loucura enorme dos palhaços,
o culto religioso e santo das esmolas,
a vasta compridão eterna dos espaços,
as coisas estupendas
que o Dante assinalou nas trágicas legendas;
a rútila doença artística, nervosa
dos gênios imortais;
e então, sobre isso tudo, a lagrima assombrosa
que afaga e que abençoa os próprios animais...
Porque era como o mar em túrgido maranho,
essa alma onipotente
do cérebro vidente,
Do velho colossal que já nasceu tamanho!