Alma do pensamento

By João da Cruz e Sousa

O cimo da montanha, a cúspide escabrosa,

galgando entre esplendor, robusta e vigorosa,

a alma do pensamento,

alarga as grandes asas

por sobre o mar de brasas,

que o sol faz explodir do rubro olhar sangrento.

Ou mesmo embevecida

nas pompas o calor da fértil natureza,

nas tardes tropicais, na olímpica surpresa

vibrante desta vida;

nos cálidos fuzis flamívomos que douram

os montes — nos trovões que ríspidos estouram,

da vasta criação nessa alma irradiante,

em toda essa grandeza aérea e triunfante,

cantar o luxo e gala e as virgens do Oriente,

a pérola, o topázio, a opala e a ametista

cujo brilhar aceso e vivo e intermitente

produz fenomenais relâmpagos na vista.

Cantar em doce canto, em cântico melínfluo

o amor, a luz, o bem que os séculos investidos,

num ímpeto largífluo,

rebenta-lhe em cascata, a humanidade ungindo.

A alma do pensamento, essa alma admirável

que perde-se no caos supremo do Insondável,

deve rugir, voar e ser como nevasca,

não ter um só desmaio

mas irromper, vibrar, vibrar bem como o raio

que tudo quebra e lasca,

do côncavo horizonte intérmino e cerúleo,

do largo ventre cheio, inteiramente farto

de gases combustíveis,

matérias explosíveis,

ruindo com fragor no pinheiral mais harto,

no tronco mais hercúleo,

A alma do pensamento,

infrene como o vento,

deve emocionar-se aos risos de esperanças,

ao soluçar das mães, aos beijos das crianças,

à lúcida vanguarda imensa do trabalho,

saber amar a luz, saber usar do malho,

ser mãe do desgraçado e dar-lhe entre carinhos,

a força e o bem-estar — salubrizados vinhos,

em largas expansões de coisas que deslumbram,

assim como o que sai das trevas que o obumbram,

e pálido e abatido e presa da clorose,

vê músicas, vê sol — augusta apoteose...

Deve afinal rugir no estrondo da procela

e ter aquele som febril e clangoroso,

ardente e atroador e enorme e estriduloso

da trompa marcial — e ter também aquela

serena placidez e os brilhos das estrelas

conforme as vejo eu lá, como eu costumo vê-las,

nos páramos de além, na alegre incomensura,

por onde a inspiração translúcida fulgura!...

Quem não compreender

Os filtros dessa luz pujante de Igualdade

que anima a cada ser,

que forma essa razão da grande humanidade;

quem não compreender os nadas fascinantes

que atiram para a glória os cérebros possantes,

e que erguem do vulgar o busto de Camões,

quem não compreender as mil rutilações

dos céus, dos claros céus, tão límpidos e nus,

os fluidos aurorais, narcóticos da luz;

quem não compreender dos pássaros, das aves

o coro florestal, as músicas suaves,

o meigo cintilar travesso de uns idílios,

o trêmulo fulgir nevrálgico de uns cílios;

quem não compreender sequer o que é virtude,

tudo o que vem do berço e rola na ataúde,

e tudo o que sentimos dentro do organismo,

a forte emanação sulfúrea de um abismo,

e tudo o que tem ar, centelhas, lumes flavos,

os átomos viris e a força da matéria,

os mundos de vapor da abóbada sidérea

e tudo o que perfuma — as rosas, lírios, cravos

e tudo o que nos vibra

— o ser — fibra por fibra

e tudo o que vegeta e cresce e que se agita;

quem não compreender que o astros até palpita,

quem não compreender — herege do Ideal

que a flor, que a pedra vê, que tem artérias — sente toda

esta orquestração simpática e vital,

engana-se a si próprio, à própria carne mente,

porquanto a natureza é sempre exuberante,

nos mostra aberrações, prodígio a cada instante.

E tudo compreendia

o Cristo universal da poética harmonia.

E era assim valente, essa alma extraordinária,

gigântea, portentosa, ideal, tumultuária

do sol que desde os reis aos míseros dos lodos,

jorrava luz e seiva e forças para todos.

E tinha as explosões das pólvoras das minas,

as rubras gargalhadas,

as cóleras ferinas,

as grandes contorções da luta, ensanguentadas

os rábidos Vesúvios

fortes, apopléticos,

os fervidos dilúvios

dos sãos, descomunais e bons entusiasmos,

as doidas cabriolas,

saltos epiléticos,

a esplêndida loucura enorme dos palhaços,

o culto religioso e santo das esmolas,

a vasta compridão eterna dos espaços,

as coisas estupendas

que o Dante assinalou nas trágicas legendas;

a rútila doença artística, nervosa

dos gênios imortais;

e então, sobre isso tudo, a lagrima assombrosa

que afaga e que abençoa os próprios animais...

Porque era como o mar em túrgido maranho,

essa alma onipotente

do cérebro vidente,

Do velho colossal que já nasceu tamanho!