Almas simples
Depois de encher a manjedoura
De palha loura
Que era a ração da sua vaca baia,
Lindo animal de saboroso leite
E pelo luzidio
Como se fosse de veludo e azeite,
A tia Rosa endireitou a saia
E subiu o caminho da praia.
O alto sino da ermida repicara,
Enchendo de sons d’ouro a tarde clara.
Viam-se além, na curva das montanhas,
Ondulações estranhas,
Tonalidades singulares,
Pinceladas de sangue, e roseirais em flor;
E púrpuras e sedas, rendas e franjas
Nas alamedas...
A tarde era um primor!
Pintalgavam-se de ouro as primeiras laranjas.
E de longe chegava a música das harpas
Misteriosas de um rio cristalino.
Aberto nas escarpas...
Já lá em cima, no adro, muita gente
Espera a novena, alegremente.
E que novena!
Dentre as lindas morenas do lugar,
Nossa Senhora, que era a mais morena
Tinha uns encantos fluídicos no olhar!...
Para as velhinhas.
Não era imagem feita por ninguém,
A da Nossa Senhora!
Que olhares infindos!
Que boca linda! Que cabelos lindos!
E que frescura nas linhas
Das suas mãos piedosas,
Feitas talvez de pétalas de rosas
Orvalhadas de luz!
Não era imagem feita por ninguém,
A da Mãe de Jesus!
Certo baixara da luz clara
De um divino luar, ou subisse do mar...
E eu, que adoro as velhinhas do lugar
Onde nasci e vivo há tantos anos,
Afirmava também:
— Não era imagem feita por ninguém.
E para que lançar uns desenganos
Nas almas simples das velhinhas? Não!
Pela última vez o sino, ao repicar
Encheu de sons de ouro o azul do ar.
E a lua de marfim
Bruxuleou
No azul que parecia de cetim...
No belo altar, no florescido altar,
A luz sagrada do piedoso olhar
Da Imagem de Maria, parecia
Outro luar...
Porém mais doce, e muito mais cheiroso,
E mavioso.
E a meiga Imagem se apresentava
Entre brancos jasmins e crisântemos.
Como eu me lembro bem dessa noite sublime
Em que toda essa gente
Começara a rezar, alegremente.
Sem os laivos do crime!
De joelhos em terra, essa gente rezava:
— À Virgem Mãe dos corações aflitos,
oremos!
— Àquela que nos ouve os ais e os gritos,
oremos!
— Àquela que, nas revoltas águas,
É a lavandeira que nos lava as mágoas,
oremos!
— Àquela que nos dá, no seu regaço,
Travesseiros cheirosos ao cansaço,
oremos!
— Àquela que, puríssima, compreende
as nossas ânsias, por demais austeras,
oremos!
— Àquela que até mesmo as próprias feras
defende, oremos!
— À que não deixa que dos próprios ninhos
caiam com frio os tenros passarinhos, oremos!
— Àquela que se lembra do jumento e da
meiga vaquinha, que se encheram de eterno sentimento,
na hora em que nasceu Jesus, o amado
filho do seu amor, seja o nome louvado
no maior esplendor!
E logo que a novena se acabou
E essa gente se levantou,
À Rosa perguntei:
Por quem oraste,
Ó querida velhinha?
“— Orei... orei... cheia de fé, orei
Pela minha vaquinha
Que ficou na manjedoura
Tesourando a palha loura”.
— E por quem oraste, Armanda,
Que vieste da outra banda?
—“Orei pelo meu burrico
“Que, se morre, morta fico”.
— Aninhas, por quem oraste,
Tu que aflita te ajoelhaste?
— “Orei, de alma ardendo em brasa,
Pelo meu galo dourado,
Relógio da minha casa,
Que me desperta, coitado!
Com sua voz bem cantada,
Às quatro da madrugada”
— E por quem oraste, Zefa?
— “Pela contínua tarefa
De subir, dias inteiros,
Outeiros e mais outeiros,
Carregando lenha aos ombros,
Sem temer tantos escombros”.
— Vicença, por quem oraste,
Tu que os olhos levantaste
Dos céus à doce pureza?
“Orei
Pela profunda tristeza,
Em que me deixou um noivado;
Pois percorro a vida inteira
Sem ter alguém ao meu lado;
E nem sei se sou viúva,
Se sou casada, ou solteira”.
— “E eu orei, disse Maria,
Pelos que andam no alto mar,
Em noites de ventania,
Com saudades do seu lar”.
— “E eu orei, disse Florença,
Por tudo quanto é doença”.
E a meiga e formosa Alice
Divinamente me disse:
— “Eu orei pelos que choram,
E nas ânsias se apavoram...”
— E tu, poeta? (perguntaram
As que dessa forma oraram):
— Por quem oraste, de palmas
Das mãos unidas ao peito?
— “Orei, muito satisfeito,
Pela paz das nossas almas”.