Almas simples

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Depois de encher a manjedoura

De palha loura

Que era a ração da sua vaca baia,

Lindo animal de saboroso leite

E pelo luzidio

Como se fosse de veludo e azeite,

A tia Rosa endireitou a saia

E subiu o caminho da praia.

O alto sino da ermida repicara,

Enchendo de sons d’ouro a tarde clara.

Viam-se além, na curva das montanhas,

Ondulações estranhas,

Tonalidades singulares,

Pinceladas de sangue, e roseirais em flor;

E púrpuras e sedas, rendas e franjas

Nas alamedas...

A tarde era um primor!

Pintalgavam-se de ouro as primeiras laranjas.

E de longe chegava a música das harpas

Misteriosas de um rio cristalino.

Aberto nas escarpas...

Já lá em cima, no adro, muita gente

Espera a novena, alegremente.

E que novena!

Dentre as lindas morenas do lugar,

Nossa Senhora, que era a mais morena

Tinha uns encantos fluídicos no olhar!...

Para as velhinhas.

Não era imagem feita por ninguém,

A da Nossa Senhora!

Que olhares infindos!

Que boca linda! Que cabelos lindos!

E que frescura nas linhas

Das suas mãos piedosas,

Feitas talvez de pétalas de rosas

Orvalhadas de luz!

Não era imagem feita por ninguém,

A da Mãe de Jesus!

Certo baixara da luz clara

De um divino luar, ou subisse do mar...

E eu, que adoro as velhinhas do lugar

Onde nasci e vivo há tantos anos,

Afirmava também:

— Não era imagem feita por ninguém.

E para que lançar uns desenganos

Nas almas simples das velhinhas? Não!

Pela última vez o sino, ao repicar

Encheu de sons de ouro o azul do ar.

E a lua de marfim

Bruxuleou

No azul que parecia de cetim...

No belo altar, no florescido altar,

A luz sagrada do piedoso olhar

Da Imagem de Maria, parecia

Outro luar...

Porém mais doce, e muito mais cheiroso,

E mavioso.

E a meiga Imagem se apresentava

Entre brancos jasmins e crisântemos.

Como eu me lembro bem dessa noite sublime

Em que toda essa gente

Começara a rezar, alegremente.

Sem os laivos do crime!

De joelhos em terra, essa gente rezava:

— À Virgem Mãe dos corações aflitos,

oremos!

— Àquela que nos ouve os ais e os gritos,

oremos!

— Àquela que, nas revoltas águas,

É a lavandeira que nos lava as mágoas,

oremos!

— Àquela que nos dá, no seu regaço,

Travesseiros cheirosos ao cansaço,

oremos!

— Àquela que, puríssima, compreende

as nossas ânsias, por demais austeras,

oremos!

— Àquela que até mesmo as próprias feras

defende, oremos!

— À que não deixa que dos próprios ninhos

caiam com frio os tenros passarinhos, oremos!

— Àquela que se lembra do jumento e da

meiga vaquinha, que se encheram de eterno sentimento,

na hora em que nasceu Jesus, o amado

filho do seu amor, seja o nome louvado

no maior esplendor!

E logo que a novena se acabou

E essa gente se levantou,

À Rosa perguntei:

Por quem oraste,

Ó querida velhinha?

“— Orei... orei... cheia de fé, orei

Pela minha vaquinha

Que ficou na manjedoura

Tesourando a palha loura”.

— E por quem oraste, Armanda,

Que vieste da outra banda?

—“Orei pelo meu burrico

“Que, se morre, morta fico”.

— Aninhas, por quem oraste,

Tu que aflita te ajoelhaste?

— “Orei, de alma ardendo em brasa,

Pelo meu galo dourado,

Relógio da minha casa,

Que me desperta, coitado!

Com sua voz bem cantada,

Às quatro da madrugada”

— E por quem oraste, Zefa?

— “Pela contínua tarefa

De subir, dias inteiros,

Outeiros e mais outeiros,

Carregando lenha aos ombros,

Sem temer tantos escombros”.

— Vicença, por quem oraste,

Tu que os olhos levantaste

Dos céus à doce pureza?

“Orei

Pela profunda tristeza,

Em que me deixou um noivado;

Pois percorro a vida inteira

Sem ter alguém ao meu lado;

E nem sei se sou viúva,

Se sou casada, ou solteira”.

— “E eu orei, disse Maria,

Pelos que andam no alto mar,

Em noites de ventania,

Com saudades do seu lar”.

— “E eu orei, disse Florença,

Por tudo quanto é doença”.

E a meiga e formosa Alice

Divinamente me disse:

— “Eu orei pelos que choram,

E nas ânsias se apavoram...”

— E tu, poeta? (perguntaram

As que dessa forma oraram):

— Por quem oraste, de palmas

Das mãos unidas ao peito?

— “Orei, muito satisfeito,

Pela paz das nossas almas”.