ALTARES

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Quero que o povo ante esta deusa austera

Ajoelhado lhe oscule o pó do rastro!

E a espere ansioso, como quem espera

A passagem magnífica de um astro!

Fugida das paragens luminosas

Ainda a engrinalda, acesa, a última réstia...

Calçam-lhe os pés dois cálices de rosas

E o sol com o manto do seu oiro veste-a!

Alvo colar de pérolas pequenas

Guarda no estojo de coral da boca,

Seu passo é leve como o das camenas

E a estrada em que anda de magnólias touca.

Envergonhado o rouxinol se cala

Lhe ouvindo a voz: — que a sua voz de santa

Povoa a terra de aves, quando fala,

Povoa o céu de estrelas, quando canta!

Os olhos são-lhe quietos lagos onde

Seu luminoso espírito se espelha

E o coração, que a hóstia do amor esconde,

Aurilavrado artóforo semelha!

A asa que ao sol, cortando águas serenas,

Como um leque de prata, um cisne espalma,

Tem nódoas e tem máculas nas penas,

Comparada à brancura de su’alma!

Anima-a celestial, vivido sopro...

Rondam-lhe beijos rútilos os flancos!

Ah!... Certo foi um deus com um sacro escopro,

Quem lhe esculpiu os belos braços brancos!

Quando ela surge em meio de secretas

Harmonias e brilhos singulares,

— Cantam todos os pássaros e poetas

E iluminam-se todos os altares!