ALTARES
Quero que o povo ante esta deusa austera
Ajoelhado lhe oscule o pó do rastro!
E a espere ansioso, como quem espera
A passagem magnífica de um astro!
Fugida das paragens luminosas
Ainda a engrinalda, acesa, a última réstia...
Calçam-lhe os pés dois cálices de rosas
E o sol com o manto do seu oiro veste-a!
Alvo colar de pérolas pequenas
Guarda no estojo de coral da boca,
Seu passo é leve como o das camenas
E a estrada em que anda de magnólias touca.
Envergonhado o rouxinol se cala
Lhe ouvindo a voz: — que a sua voz de santa
Povoa a terra de aves, quando fala,
Povoa o céu de estrelas, quando canta!
Os olhos são-lhe quietos lagos onde
Seu luminoso espírito se espelha
E o coração, que a hóstia do amor esconde,
Aurilavrado artóforo semelha!
A asa que ao sol, cortando águas serenas,
Como um leque de prata, um cisne espalma,
Tem nódoas e tem máculas nas penas,
Comparada à brancura de su’alma!
Anima-a celestial, vivido sopro...
Rondam-lhe beijos rútilos os flancos!
Ah!... Certo foi um deus com um sacro escopro,
Quem lhe esculpiu os belos braços brancos!
Quando ela surge em meio de secretas
Harmonias e brilhos singulares,
— Cantam todos os pássaros e poetas
E iluminam-se todos os altares!