Amor de poeta

By Delminda Silveira de Sousa

Anízio, se tu visses que o desgosto

da mocidade a flor me deslustrava,

arrugando-me a tez, dando-me ao rosto

pálidos tons d’esmorecida rosa,

em vez da cor mimosa

com que outrora a ventura m’o alindava;

ai! se tu visses, entre os meus cabelos,

como flocos sutis de finos gelos,

prateados fios enastrando a trança...

dize-me, Anízio, te morria a esperança?...

ou, nesta desilusão amarga, infinda,

me adoraras ainda?...

Ah! se de prova tão cruel, embora,

teu doce amor ileso triunfasse,

dúlcido e grato, como a fé de outrora

que crescia no altar do sacrifício,

como si o suplício

mais, ainda mais o heroísmo sublimasse...

Anízio! Anízio! — onde haverá ternura

que o meu sentir te diga, se assim fosse?

— Não há nas flores mel mais fino e doce,

não há nos astros luz mais pura e clara,

nem harmonia mais rara

há, que te exprima essa ideal ventura!

Escuta, Anízio: há um amor sublime,

um afeto do Céu que terra desce;

— amor que toda mágoa atroz — redime,

amor que toda esperança fortalece:

— pois se eu visse que a fé não te morria,

com esse afeto, Anízio, eu te amaria!...