Amor de poeta
Anízio, se tu visses que o desgosto
da mocidade a flor me deslustrava,
arrugando-me a tez, dando-me ao rosto
pálidos tons d’esmorecida rosa,
em vez da cor mimosa
com que outrora a ventura m’o alindava;
ai! se tu visses, entre os meus cabelos,
como flocos sutis de finos gelos,
prateados fios enastrando a trança...
dize-me, Anízio, te morria a esperança?...
ou, nesta desilusão amarga, infinda,
me adoraras ainda?...
Ah! se de prova tão cruel, embora,
teu doce amor ileso triunfasse,
dúlcido e grato, como a fé de outrora
que crescia no altar do sacrifício,
como si o suplício
mais, ainda mais o heroísmo sublimasse...
Anízio! Anízio! — onde haverá ternura
que o meu sentir te diga, se assim fosse?
— Não há nas flores mel mais fino e doce,
não há nos astros luz mais pura e clara,
nem harmonia mais rara
há, que te exprima essa ideal ventura!
Escuta, Anízio: há um amor sublime,
um afeto do Céu que terra desce;
— amor que toda mágoa atroz — redime,
amor que toda esperança fortalece:
— pois se eu visse que a fé não te morria,
com esse afeto, Anízio, eu te amaria!...