AMOR E LÁGRIMAS

By Laurindo José da Silva Rabelo

Se fosse possível na minha alma

Amanhecer um dia da ventura,

Corado por um beijo de donzela

Ao despontar d’aurora...

Se, Anjo de salvação mandado ao mísero,

Sorrindo, pelo céu jurasse a bela

Fazer-me cada vez por novos beijos

Mais rubra a cor do dia...

Se fiel companheira em toda parte

Quisesse me seguir, presa comigo,

Como um raio celeste preso a um astro

A iluminar-lhe o curso...

Se a visse, desdenhosa a mil tesouros,

Só por ter-me, deixá-los e contente

A gabar-me o sabor do pão grosseiro

Que me alimenta a vida...

Não a crera; e talvez que até julgasse

Tantas provas de amor atroz perfídia,

Se amor me não brilhasse nos seus olhos

No centro de uma lágrima.

Amor é fogo; o coração que ama

Todo nas suas chamas se evapora,

No rosto se condensa, e chega aos olhos

Em água convertido.

Que é um riso? — Um prazer. Prisão estreita

De duas almas? — Simpatia apenas:

E os abraços e beijos? — Muitas vezes

Sustento de lascívia.

Tudo isso diz amor; mas quando? — Quando,

Filho de um doce afeto que se apura

Nos cadinhos da dor, é batizado,

Num batismo de prantos.

É belo ver-se uns olhos cintilantes,

Acesos em vulcões de fogo ignoto,

A dardejar faíscas invisíveis

Que os corações abrasam:

É belo ver-se um rosto nacarado

No carmim do prazer: é belo ver-se

Partir fino coral de rubros lábios

Um sim d’alma saído:

Mas em rostos assim amor não fala;

E, se fala, as mais vezes diz mentiras;

E este — sim — que tomamos por verdade

É escárnio do crente.

Quereis vê-lo sincero? Observai-o

N’açucena de um rosto desmaiado,

Entre os lírios de uns lábios que roxeiam

Suspiros de agonia:

Nuns olhos, cuja luz crepusculante,

Entre a neve das lágrimas, pareça

Revérbero da alâmpada mortiça

Do templo da saudade.

Aí podeis lhe crer o que disser-vos,

Podeis segui-lo sem temer um crime;

Que amor, se o pranto lhe borrifa as asas,

Seu vôo ao céu dirige.