AMOROSA HYPOCREZIA DE CONFORMIDADE EM PENAS.

By Gregório de Matos Guerra

Deus vos dê vida, Babu,

para tirar-me, a que tenho,

que segundo usais comigo,

eu vos não sinto outro jeito.

Todo o bairro sente o dano,

que ides ao bairro fazendo,

só eu não sinto o meu mal,

mas antes vo-lo agradeço.

Porque se a vossa beleza

é causa do meu tormento,

como hei de sentir meu mal,

se é tão forçoso, e tão belo.

Matai-me, embora, contanto

que saibam, que estou morrendo,

Babu, de vossa beleza,

porque entendam, que o mereço.

Quem perder por vós a vida,

e com tal merecimento,

que chegue a morrer por vós,

que mais quer, que merecê-lo?

É verdade, que lastimo,

aos que assim me vêem morrendo,

que a glória do padecer

não pode entendê-la um néscio.

Lástima os néscios me têm,

e poderão ter-me os néscios

de ver-me morrer inveja,

mais de que ver-me vivendo.

Viver, não pode, quem ama,

e eu olvidar-vos não quero,

se hei de morrer, quando amo,

e viver, quando aborreço.

Morra embora de adorar-vos,

que este é formoso tormento,

esta a suave agonia,

este o pesar lisonjeiro.

Dai-me licença, que escolha,

nestes dois contrários meios

antes morrer por amar-vos,

que viver de aborrecer-vos.