Antífonas

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Encheram-se as velas brancas

De rajadas as mais francas.

Partiram, numa enfiada,

As canoas da enseada.

Foram-se todas às vagas,

Sem tristezas aziagas.

Sem negros pressentimentos

De virem medonhos ventos.

É que o sol todo floria,

De rosas e pedraria

A verde encosta dos montes,

E afagava os horizontes.

Sobre o alto Cambirela

Havia luz amarela.

E havia nas suas fraldas

Liquescentes esmeraldas;

E nas suas cachoeiras,

Claridades de poncheiras

E muita luz de berilos

Pelos seus rios tranquilos.

E além, fulgurantes listas

De safiras e ametistas!

E sobre as folhas do mangue

Derrames de vivo sangue.

E sobre a Ilha das Vinhas

Gaivotas e andorinhas.

E um forte perfume de erva,

Que as fibras do peito enerva,

Derramava-se por tudo,

Como em mantos de veludo.

As Tipitingas sorriam

Às ondinas que se abriam...

Ia-lhes um sorriso brando

Divinamente embalando...

E de lado a lado, as casas

Eram brancas como as asas

Das garças, quando paradas

Pelas praias perfumadas.

E agora a noite é um manto

De veludilho o mais santo.

Desceu crivada de estrelas

Que a gente se alegra ao vê-las.

Como o teu manto, Senhora

De prata a noite se enflora,

Tal qual teu manto sagrado

Todo o céu é salpicado

De encantadores pórfiros:

— Urnas dos nossos suspiros;

Segredos das nossas ânsias

Que se vão pelas distâncias.

Em procura de refúgios,

Bem distantes dos efúgios;

Bem distantes dos insanos

Tormentos e desenganos,

Dos quais o mundo se alastra

Numa tortura de adastra.

E como desceu a noite

Sem um gemido de açoite,

Do vento no mar luzindo,

No mar que se vê tão lindo!

Permite, Virgem Maria,

Que não venha à calmaria

Das ondas um vento solto,

E o mar se torne revolto;

Ou se torne o mar bem como

Um leão cheio de assomo...

Que o mar se conserve ameno

Como o olhar do Nazareno.

E por esses arredores

Fiquem bem os pescadores,

Lançando ao mar as braçadas

Das suas redes talhadas;

E cantem, junto às canoas,

Seus ditirambos e loas,

Que são, à luz das estrelas,

As antífonas mais belas...

E que tu, Virgem Maria,

Plena de graça e alegria,

Possas ouvi-los cantar,

Do largo espaço sem fim,

Onde vives a viajar

No teu barco de marfim.