Antífonas
Encheram-se as velas brancas
De rajadas as mais francas.
Partiram, numa enfiada,
As canoas da enseada.
Foram-se todas às vagas,
Sem tristezas aziagas.
Sem negros pressentimentos
De virem medonhos ventos.
É que o sol todo floria,
De rosas e pedraria
A verde encosta dos montes,
E afagava os horizontes.
Sobre o alto Cambirela
Havia luz amarela.
E havia nas suas fraldas
Liquescentes esmeraldas;
E nas suas cachoeiras,
Claridades de poncheiras
E muita luz de berilos
Pelos seus rios tranquilos.
E além, fulgurantes listas
De safiras e ametistas!
E sobre as folhas do mangue
Derrames de vivo sangue.
E sobre a Ilha das Vinhas
Gaivotas e andorinhas.
E um forte perfume de erva,
Que as fibras do peito enerva,
Derramava-se por tudo,
Como em mantos de veludo.
As Tipitingas sorriam
Às ondinas que se abriam...
Ia-lhes um sorriso brando
Divinamente embalando...
E de lado a lado, as casas
Eram brancas como as asas
Das garças, quando paradas
Pelas praias perfumadas.
E agora a noite é um manto
De veludilho o mais santo.
Desceu crivada de estrelas
Que a gente se alegra ao vê-las.
Como o teu manto, Senhora
De prata a noite se enflora,
Tal qual teu manto sagrado
Todo o céu é salpicado
De encantadores pórfiros:
— Urnas dos nossos suspiros;
Segredos das nossas ânsias
Que se vão pelas distâncias.
Em procura de refúgios,
Bem distantes dos efúgios;
Bem distantes dos insanos
Tormentos e desenganos,
Dos quais o mundo se alastra
Numa tortura de adastra.
E como desceu a noite
Sem um gemido de açoite,
Do vento no mar luzindo,
No mar que se vê tão lindo!
Permite, Virgem Maria,
Que não venha à calmaria
Das ondas um vento solto,
E o mar se torne revolto;
Ou se torne o mar bem como
Um leão cheio de assomo...
Que o mar se conserve ameno
Como o olhar do Nazareno.
E por esses arredores
Fiquem bem os pescadores,
Lançando ao mar as braçadas
Das suas redes talhadas;
E cantem, junto às canoas,
Seus ditirambos e loas,
Que são, à luz das estrelas,
As antífonas mais belas...
E que tu, Virgem Maria,
Plena de graça e alegria,
Possas ouvi-los cantar,
Do largo espaço sem fim,
Onde vives a viajar
No teu barco de marfim.