AO CAPITÃO DOMINGOS CARDOZO POR ALCUNHA O MANGARÁ, QUERELLANDO, E PRENDENDO DUAS MULATAS, MAY, E FILHA PELO FURTO DE HUM PAPAGAYO, SENDO HUMA DELLAS SUA AMAZIA.

By Gregório de Matos Guerra

A quem não causa desmaio

esta querela recente,

as Mulatas na corrente

em falta do Papagaio?

eu de verdade não caio

nesta justiça em rigor:

ora este tal prendedor

quem seria, ou quem será?

Mangará.

Diz, que em tudo tinha graça

a Jandaia abrindo a boca,

dizendo já toca toca,

meu Papagaio, quem passa?

Mangará, que vai à caça:

porém na presente perda

passará a beber da merda,

que não faltará, quem vá,

Mangará.

As Mulatas no seu mal

vão disfarçando a paixão,

pois lhes deu uma prisão

o Papagaio Real:

diz, que para Portugal

lindamente dava o pé,

mas uma articula, que

o contrário provará

Mangará.

Provará, que ele gostara,

e que não satisfizera,

e muitas cousas dissera,

se o Papagaio falara:

que o Capitão intentara

pagar-lhe em bens de raiz,

pois sendo Mangará quis

transfigurar-se em cará

Mangará

Pondo-se o pleito em julgado

dar testemunhas procura

com o Primo Rapadura,

e um compadre seu melado:

mas há de ficar borrado

como o tal Primo ficou,

quando a Mulata o purgou

naquele triste aracá

Mangará.

Na gaiola apassarada,

onde as duas pobres vejo,

a primeira entrou sem pejo,

mas a segunda pejada:

arrebentou de embuchada

um presozinho pequeno,

que criado com veneno

prisões não estranhará,

Mangará.

Todo o povo, que isto vê,

pergunta em seu desabono,

não ao Papagaio, ao dono,

que casta de pássaro é;

eu por me fazer mercê,

dou o sentido cabal,

e um contrafeito asnaval

empenado em Pirajá

Mangará.