AO CAPITÃO JOÃO TEYXEIRA DE MENDONÇA QUERENDO FUGIR COM A FAZENDA DOS DEFUNTOS, E AUSENTES, DE QUE ERA THESOUREIRO E FOY PREZO.

By Gregório de Matos Guerra

O Senhor João Teixeira

Mendonça de quando em quando

na cadeia está purgando

humores de ladroeira:

a Putaina, que era herdeira

universal dos defuntos,

perdeu já redoma, e untos,

e está já desenganada,

que o ladrão mata a porcada,

e o Fisco come os presuntos.

Tinha o Fidalgo tostado

(como ladrão tão astuto)

os bens em lugar enxuto,

mas mal acondicionado:

estava o barco ancorado,

e nisto esteve a ruína,

porque a carga era rapina,

e deu-nos espanto, e mágoa,

de que pela veia d’água

se desse naquela mina.

As Almas do Purgatório,

como os fardos eram seus,

estavam pedindo a Deus

cada qual seu envoltório:

ouviu Deus o peditório,

e com ter tão forte mão

em qualquer execução,

vendo-as perder por instantes,

se ajudou de uns Ajudantes

para fazer a prisão.

Foram eles à setia,

e dizem, que se prendera,

porque tão sôfrego era,

que furtava, e não partia:

o Tesoureiro esse dia

fazia conta de se ir,

e a tardança o fez cair

e então se lhe ouviu dizer,

furtava para esconder,

porém não para partir.

Ladrão como mentecapto

no profundo do porão,

passado como ladrão,

e fino como mulato:

deram-lhe muito mau trato

em o trazer amarrado,

sendo que andou como honrado

em seguir aquela via,

que eu não vi na fidalguia

Mendonça sem ter Furtado.

A parentela se ria,

que é gente, que aqui negreja,

porque lhe causava inveja

ver, que lhe dava honraria:

alvoroçou-se a Bahia

entre admiração, e gozo,

porque era caso espantoso,

que tomasse sem ser Saulo

o caminho de São Paulo

um ladrão facinoroso.

Ficou no porto a setia,

e o Tesoureiro selvagem

chegou, sem fazer viagem

a salvamento a enxovia:

diz o povo, que fugia

por de todo estar quebrado;

mas o povo está enganado,

porque eu vi o Tesoureiro

na cadeia mui inteiro,

e mui desavergonhado.

Já dizem as profecias

dos homens exp’rimentados,

que a quatro dias andados,

ou daqui a quatro dias,

todas as tesourarias

adrede lhas hão de dar,

por ser homem singular,

que guarda a rigor da lei

tanto a fazenda d’El-Rei,

que El-Rei a não pode achar.

E se a justiça lhe deu

no rasto por tantas calmas,

já disse, que foram almas,

que choraram pelo seu:

aos Santos (sempre ouvi eu)

era seguro o furtar,

porque não podem falar;

mas d’almas não há fiar-se,

que se não podem queixar-se,

contudo podem rezar.

Toda a cidade notou,

que este Tesoureiro alvar

é tão destro no embolsar,

que a si mesmo se embolsou:

na cadeia se encaixou,

que é bolsa dos maus ladrões,

e se os doutos cabeções

fazem crime de ausentar-se,

hei medo, que há de chegar-se

do verdugo aos calções.