AO CAPITÃO JOZE PEREYRA POR ALCUNHA O SETTE CARREYRAS LOUCO COM CAPRICHOS DE POETA SENDO ELLE IGNORANTISSIMO.

By Gregório de Matos Guerra

Amigo Senhor José,

não me fareis uma obra;

porque se a graça vos sobra,

me fazeis graça, e mercê:

fazei-me uma obra, em que

honra me deis aos almudes,

e se em vossos alaúdes,

que Apolo vos temperou,

não cabe o pouco, que eu sou,

caberão vossas virtudes.

Fazei-me uma obra, enquanto

a Musa se me melhora,

que eu prometo desde agora

pagar-vos tanto por tanto:

que como Deus é bom Santo,

e não há ovo sem gema,

sereis do meu plectro o tema,

porque, a quem me faz um verso,

não serei eu tão perverso,

que lhe não faça um poema.

Saiam esses resplandores

essas luzes rutilantes,

rubis, pérolas, diamantes,

cravos, açucenas, flores:

saiam da Musa os primores,

que há hortelão da poesia,

que gasta em menos de um dia

de flores um milenário,

e há Poeta Lapidário

gastador da pedraria.

Eu quatro versos fazendo

não me meto em gasto tal,

nem posso chamar cristal,

a mão, que humana estou vendo:

aos olhos, que ao que eu entendo,

são de sangue dous pedaços,

não chamo diamantes baços,

porque os não tenho por tais,

que há Poetas Liberais,

e os meus são versos escassos.

Vós sois o Deus da poesia,

que sobre o vosso Pegaso

andais mudando o Parnaso

neste monte da Bahia:

nos ensina aos praticantes

tão graciosos consoantes,

que vos juro a Jesu Cristo,

que em quantos versos hei visto,

não vi versos semelhantes.

Sois Poeta natural,

e tendes sempre a mão cheia

não só na Aganipe a veia,

mas na veia um mineral:

correm por um manancial

da vossa boca Aretusas,

e as nove Musas obtusas

de ver o vosso partolo,

em vez de Musas de Apolo,

querem ser as vossas Musas.