AO CAPITÃO MANUEL DIAS FILGUEYRA PREZO, E RETRAIDO NA MOXINGA POR HAVER QUEBRADO UM CAMAREYRO NA PORTA DE CERTA PERSONAGEM.

By Gregório de Matos Guerra

Preso está no Limoeiro

repicando uma corrente

certo Capitão valente,

por matar um camareiro:

e se o caso é verdadeiro,

e foi ele o matador,

pois o maior ao menor

usurpa, arrasta, e convence,

quem um camareiro vence,

será camareiro mor.

Rompeu a testa a um cortiço,

que estava em certa calçada,

cuida ele, que não fez nada,

e à rua fez mau serviço;

porque tendo aviso disso

pelo favônio, que entrava,

a gente, que ali morava,

enfadada do vapor,

que exalava o servidor,

por mal servida se dava.

Como os miolos saltaram

da cabeça, que ofenderam,

assim as novas correram,

té que à cadeia chegaram:

logo então se despacharam

os Morenos da corrente,

e o caso era tão recente,

que sem mais informação

prenderam ao Capitão,

porque cheirava a valente.

Entre tanta cachaporra

veio à prisão, que o maltrata,

porque quem com ferro mata,

quer Deus, que com ferro morra:

e porque nada o socorra,

na moxinga o entupiram,

onde os mais dos presos viram,

que por serviço do Céu,

pois que o vidrado ofendeu,

vidrados o perseguiram.

Lastimou-se o mundo disso,

pois quantos serviços fez

como homado Português.

perdeu por um mau serviço:

hoje que livre o toutiço

já penteia o pêlo louro,

ganhou (fora vá de agouro)

por indústria, e por santaca

uma Noiva de tambaca

com dote de prata, e ouro.

Mas ficou em tão ruim fé

este sucesso infeliz,

que nenhum homem já diz,

servidor de Vossarcê:

item qualquer homem, que

publicar, que é servidor

do Fidalgo, e do Senhor,

há de vir, com maus feitiços

o Capitão dos serviços

a quebrar-lhe o servidor.