AO CONDE DE SÃO LOURENÇO
Ante vós, claro senhor,
Que pondes os sãos cuidados
De bons estudos no amor,
E que d’homens aplicados
Sois o exemplo e o protetor;
Levanto sem pejo a voz;
Que essa alma nunca despreza
O pouco que encontra em nós:
Não produz a natureza
Muitos homens como vós;
Pois vi outrora amparado
O discreto e doce Brito,
Triste moço, em flor cortado.
Que ia alevantando o esp’rito,
De vossas luzes guiado:
Pois na vida lhe adoçastes
De seu fado a má ventura;
E não vos envergonhastes,
Quando a fria sepultura
Com as lágrimas lhe honrastes;
Se os seus versos sonorosos
Inda repetis com mágoa;
E pensamentos saudosos
Vos trazem aos olhos água,
Que os deixa, senhor, formosos;
Hoje, outro triste vos faça
Nascer iguais sentimentos:
Com os vossos pés se abraça;
Não tem os mesmos talentos;
Mas tem a mesma desgraça:
Nascido em baixa pobreza,
Quis buscar uma colu’na;
Foi sempre baldada a empresa,
Achou ingrata a fortuna,
Inda mais, que a natureza.
Em vão paternal ternura
Com vivo zelo me assiste;
Foi trabalho sem ventura;
Crescia no filho triste,
Com a idade, a desventura:
Das boas artes no estudo
Bom pai empenhar-me quis;
Traçava o velho sisudo
Que fosse um filho feliz
Dos outros filhos o escudo:
Foram seus intentos vãos;
Zombou desgraça importuna
Destes pensamentos sãos;
Para vencer a fortuna
Não ha lágrimas, nem mãos:
Cortado então de agonias.
Só esperei ter ventura,
Quando envolto em cinzas frias
Escondesse a sepultura
Meu nome, e meus tristes dias:
E enquanto o vento forceja,
E no mar, que em flor rebenta.
Meu fraco lenho veleja,
Demando, em tanta tormenta.
Por porto a casa de Angeja:
Surgi em lugar seguro,
Onde achei mil acolhidos;
Clareou o dia escuro;
E meus molhados vestidos
Pelas paredes penduro:
De meu fado a foiça dura
Foi um pouco enfraquecendo;
E ainda que em sombra escura,
Vem-me ao longe aparecendo
O bom rosto da ventura:
Vossos sobrinhos me dão
(Porque de meus males sabem)
Princípios de proteção;
Mandai-lhes que em mim acabem
Esta obra da sua mão:
Mandai que apressem o passo,
Que inda longe a meta vejo,
Pois nas suplicas que faço,
Não se vence com desejo,
Vence-se à força de braço:
Mandai, pois tendes direito,
Que o turvo mar arrostando,
A corrente ponham peito;
Falai, senhor, que em faltando,
O vosso mandado é leito.
Não vedes venal incenso
Por astuta mão queimado;
Falo, senhor, como penso;
Eu sei quanto é respeitado
O erudito São Lourenço:
Eu sei bem o alto conceito,
E as gerais estimações,
Que todos de vós tem feito;
Ouço ternas expressões,
Filhas de amor e respeito:
Do bom irmão e sobrinhos
Ouço tod’hora louvar-vos;
Ouço-lhes doces carinhos;
De poderem agradar-vos
Desejam achar caminhos:
Vosso irmão e pregoeiro
Ordena, como sisudo,
Ao ilustre neto e herdeiro,
Que das ciências no estudo
Vai dar o passo primeiro.
Se encoste a vós, sem desvio,
Qual ao choupo hera silvestre;
Que em artes, virtude, e brio.
Mais, do que as regras do mestre.
Siga os ditames do fio:
Com que gosto ouço e contemplo,
Dizer-lhe: “Se ao bem te inclinas,
Segue-o no estudo e no templo;
Ele te dê as doutrinas;
Ele te sirva de exemplo.”
Mas sigo inútil empresa,
Pois sabeis quais são seus peitos;
Mistura-se esta fineza
Com os sagrados direitos
Do sangue e da natureza:
Todo o mundo, em vosso abono,
Põe na boca os corações,
E d’eles vos chama dono;
Ouço mil aclamações
Desde a plebe até ao trono:
A geral estimação
Nos arma de autoridade;
Vinde pôr nesta obra a mão,
E dai-me felicidade.
Como me dais instrução:
Sabeis a fundo, e de cor,
Tudo quanto ha bom, escrito;
Juntai extremos, senhor;
Ao homem mais erudito,
Juntai o mais benfeitor.
Pois sabeis da antiguidade
Prosas sãs, e sã poesia,
Deveis sentir mais piedade;
Quem tem mais filosofia,
Vê melhor a humanidade:
Que eu nesta fresca espessura,
Entre estes louros sagrados.
Sentado sobre a verdura.
Cantarei versos limados
A quem me fez ler ventura:
Deixarei em mil letreiros
O vosso nome entalhado
Nos troncos destes loureiros;
Possa ele ser respeitado
Do negro vento, e chuveiros:
Ramos sobre ele estendendo,
Dafne no seu peito o tome;
E eu, doces hinos tecendo,
Verei ir o tronco e o nome
Té às estrelas crescendo.