AO CONDE DE SÃO LOURENÇO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Ante vós, claro senhor,

Que pondes os sãos cuidados

De bons estudos no amor,

E que d’homens aplicados

Sois o exemplo e o protetor;

Levanto sem pejo a voz;

Que essa alma nunca despreza

O pouco que encontra em nós:

Não produz a natureza

Muitos homens como vós;

Pois vi outrora amparado

O discreto e doce Brito,

Triste moço, em flor cortado.

Que ia alevantando o esp’rito,

De vossas luzes guiado:

Pois na vida lhe adoçastes

De seu fado a má ventura;

E não vos envergonhastes,

Quando a fria sepultura

Com as lágrimas lhe honrastes;

Se os seus versos sonorosos

Inda repetis com mágoa;

E pensamentos saudosos

Vos trazem aos olhos água,

Que os deixa, senhor, formosos;

Hoje, outro triste vos faça

Nascer iguais sentimentos:

Com os vossos pés se abraça;

Não tem os mesmos talentos;

Mas tem a mesma desgraça:

Nascido em baixa pobreza,

Quis buscar uma colu’na;

Foi sempre baldada a empresa,

Achou ingrata a fortuna,

Inda mais, que a natureza.

Em vão paternal ternura

Com vivo zelo me assiste;

Foi trabalho sem ventura;

Crescia no filho triste,

Com a idade, a desventura:

Das boas artes no estudo

Bom pai empenhar-me quis;

Traçava o velho sisudo

Que fosse um filho feliz

Dos outros filhos o escudo:

Foram seus intentos vãos;

Zombou desgraça importuna

Destes pensamentos sãos;

Para vencer a fortuna

Não ha lágrimas, nem mãos:

Cortado então de agonias.

Só esperei ter ventura,

Quando envolto em cinzas frias

Escondesse a sepultura

Meu nome, e meus tristes dias:

E enquanto o vento forceja,

E no mar, que em flor rebenta.

Meu fraco lenho veleja,

Demando, em tanta tormenta.

Por porto a casa de Angeja:

Surgi em lugar seguro,

Onde achei mil acolhidos;

Clareou o dia escuro;

E meus molhados vestidos

Pelas paredes penduro:

De meu fado a foiça dura

Foi um pouco enfraquecendo;

E ainda que em sombra escura,

Vem-me ao longe aparecendo

O bom rosto da ventura:

Vossos sobrinhos me dão

(Porque de meus males sabem)

Princípios de proteção;

Mandai-lhes que em mim acabem

Esta obra da sua mão:

Mandai que apressem o passo,

Que inda longe a meta vejo,

Pois nas suplicas que faço,

Não se vence com desejo,

Vence-se à força de braço:

Mandai, pois tendes direito,

Que o turvo mar arrostando,

A corrente ponham peito;

Falai, senhor, que em faltando,

O vosso mandado é leito.

Não vedes venal incenso

Por astuta mão queimado;

Falo, senhor, como penso;

Eu sei quanto é respeitado

O erudito São Lourenço:

Eu sei bem o alto conceito,

E as gerais estimações,

Que todos de vós tem feito;

Ouço ternas expressões,

Filhas de amor e respeito:

Do bom irmão e sobrinhos

Ouço tod’hora louvar-vos;

Ouço-lhes doces carinhos;

De poderem agradar-vos

Desejam achar caminhos:

Vosso irmão e pregoeiro

Ordena, como sisudo,

Ao ilustre neto e herdeiro,

Que das ciências no estudo

Vai dar o passo primeiro.

Se encoste a vós, sem desvio,

Qual ao choupo hera silvestre;

Que em artes, virtude, e brio.

Mais, do que as regras do mestre.

Siga os ditames do fio:

Com que gosto ouço e contemplo,

Dizer-lhe: “Se ao bem te inclinas,

Segue-o no estudo e no templo;

Ele te dê as doutrinas;

Ele te sirva de exemplo.”

Mas sigo inútil empresa,

Pois sabeis quais são seus peitos;

Mistura-se esta fineza

Com os sagrados direitos

Do sangue e da natureza:

Todo o mundo, em vosso abono,

Põe na boca os corações,

E d’eles vos chama dono;

Ouço mil aclamações

Desde a plebe até ao trono:

A geral estimação

Nos arma de autoridade;

Vinde pôr nesta obra a mão,

E dai-me felicidade.

Como me dais instrução:

Sabeis a fundo, e de cor,

Tudo quanto ha bom, escrito;

Juntai extremos, senhor;

Ao homem mais erudito,

Juntai o mais benfeitor.

Pois sabeis da antiguidade

Prosas sãs, e sã poesia,

Deveis sentir mais piedade;

Quem tem mais filosofia,

Vê melhor a humanidade:

Que eu nesta fresca espessura,

Entre estes louros sagrados.

Sentado sobre a verdura.

Cantarei versos limados

A quem me fez ler ventura:

Deixarei em mil letreiros

O vosso nome entalhado

Nos troncos destes loureiros;

Possa ele ser respeitado

Do negro vento, e chuveiros:

Ramos sobre ele estendendo,

Dafne no seu peito o tome;

E eu, doces hinos tecendo,

Verei ir o tronco e o nome

Té às estrelas crescendo.