AO CONDE DE VILA-VERDE, AGRADECENDO A SOLTURA DE EZEQUIEL, ALCAIDE DO BAIRRO DE ...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhor, o meu Ferrabraz,

Que co’as mãos faz obra grossa,

Promete abaixar a sua,

E vem beijar-vos a vossa.

Tinha força, e tinha amor,

Pôs em linda face a mão,

E a fineza, por ser sua.

Teve ares de bofetão.

Queixou-se a ninfa soberba,

Falsa dor com arte exprime,

Fez aparecer o amor

Com os vestidos do crime.

Temis também é mulher,

Deu-lhe ouvidos e carinho,

Quis favorecer seu sexo.

Deu à balança um jeitinho.

Sucumbe o amante valente,

E no seu coração disse:

“Se eu tal paga adivinhara,

Fizera maior meiguice.”

Mas ferro abranda leões,

Com pranto os ferros banhava,

Prometia mil emendas

Do delito que negava.

Dar ao vento aflitas queixas

Eu o vi por muitos dias:

Já não era Ezequiel,

Converteu-se em Jeremias.

Por ele então vos roguei,

Gratidão m’o pede assim;

Não guarda só a cadeia,

Guarda-me lambem a mim.

Tenho a barbara mania,

Por fugir de minhas dores.

De ir dentro no Limoeiro

Ouvir as dos malfeitores.

E a meu lado co’o bambu

Tal segurança me faz,

Que na habitação do crime

Estou no seio da paz.

Armam a vossa justiça

Os réus na prosperidade.

Mas carregados de ferros

Fazem-vos os réus piedade.

Levastes seus ais ao trono,

Vencestes a causa sua;

Por mim a vossa bondade

O pôs no meio da rua.

Chamou-me o seu benfeitor,

Abraçou estas cãs frias,

Jurou não dar bofetões

Estes oito ou quinze dias.

Prometi-lhe que se os desse,

E eu o livrasse assim,

Desde já tinha licença

Para os dar também em mim.

Senhor, beijamos as mãos,

Eu, o réu, e o carcereiro,

Com lodos os mais tafuis

Da súcia do Limoeiro.