AO CONDE DE VILA-VERDE, AGRADECENDO A SOLTURA DE EZEQUIEL, ALCAIDE DO BAIRRO DE ...
Senhor, o meu Ferrabraz,
Que co’as mãos faz obra grossa,
Promete abaixar a sua,
E vem beijar-vos a vossa.
Tinha força, e tinha amor,
Pôs em linda face a mão,
E a fineza, por ser sua.
Teve ares de bofetão.
Queixou-se a ninfa soberba,
Falsa dor com arte exprime,
Fez aparecer o amor
Com os vestidos do crime.
Temis também é mulher,
Deu-lhe ouvidos e carinho,
Quis favorecer seu sexo.
Deu à balança um jeitinho.
Sucumbe o amante valente,
E no seu coração disse:
“Se eu tal paga adivinhara,
Fizera maior meiguice.”
Mas ferro abranda leões,
Com pranto os ferros banhava,
Prometia mil emendas
Do delito que negava.
Dar ao vento aflitas queixas
Eu o vi por muitos dias:
Já não era Ezequiel,
Converteu-se em Jeremias.
Por ele então vos roguei,
Gratidão m’o pede assim;
Não guarda só a cadeia,
Guarda-me lambem a mim.
Tenho a barbara mania,
Por fugir de minhas dores.
De ir dentro no Limoeiro
Ouvir as dos malfeitores.
E a meu lado co’o bambu
Tal segurança me faz,
Que na habitação do crime
Estou no seio da paz.
Armam a vossa justiça
Os réus na prosperidade.
Mas carregados de ferros
Fazem-vos os réus piedade.
Levastes seus ais ao trono,
Vencestes a causa sua;
Por mim a vossa bondade
O pôs no meio da rua.
Chamou-me o seu benfeitor,
Abraçou estas cãs frias,
Jurou não dar bofetões
Estes oito ou quinze dias.
Prometi-lhe que se os desse,
E eu o livrasse assim,
Desde já tinha licença
Para os dar também em mim.
Senhor, beijamos as mãos,
Eu, o réu, e o carcereiro,
Com lodos os mais tafuis
Da súcia do Limoeiro.