AO CONDE DE VILA-VERDE, D. JOSÉ, DEPOIS MARQUÊS DE ANGEJA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhor, eu não sou culpado;

Traçar outros versos quis;

Mas tenho perdido o trilho

Com as trovas do Luiz:

A musa, que há pouco as fez,

Outra rima não me inspira;

Por mais que mordo nas unhas,

E que em vão tempero a lira.

Aceitai meus bons desejos;

E como homem de razão

Não desprezeis baixos versos,

Quando os dieta o coração:

Minhas fiéis expressões.

Filhas de amor e saudade,

O que não tem em poesia,

Lhe vai suprido em verdade.

Enquanto co’as soltas velas.

Forçadas do vento rijo,

Demandava a galeota

Os areais do Montijo;

Enquanto ao príncipe augusto

O pátrio Tejo se humilha,

E sobre os rasgados ombros

Lhe leva a soberba quilha;

Meus olhos, meus tristes olhos,

Nas águas seguindo a esteira,

De lágrimas se arrasavam

Sobre as praias da Junqueira:

Dentro do cansado peito

Se ateou crua peleja;

Senti uma gueira viva

De saudades, e de inveja:

Não era de baixa inveja

Afeto grosseiro e injusto;

Era invejar ao criado

Ir junto a seu amo augusto.

Senhor, não sou atrevido;

Há lugares derradeiros;

O meu desejo me punha

Entre a chusma dos lemeiros;

Com as faces açoutadas

Dos agudos ventos frios,

Entre os borrifos das ondas,

E as pragas dos algarvios;

A Apolo pedindo a lira.

Que só para isto invejo.

Chamara das frias grutas

As louras filhas do Tejo;

Que escutando o som divino

Entre as úmidas moradas,

E levantando nas ondas

Suas cabeças douradas;

De tal hóspede soberbas

O lenho rodeariam;

E as águas c’o branco peito

A porfia lhe abririam:

O fatídico Proteu,

Cheio de saber divino.

Revelara ao novo herói

Os segredos do destino;

Famosas ações cantara,

Levantando a sabia voz,

Moldadas sobre as histórias

Dos augustos pais, e avós.

Mas, senhor, a minha musa

Sem tino ao ar se remonta;

E vai-se metendo em obra,

De que não pode dar conta:

Esta levantada empresa

Até a Boileau deu sustos;

Dizia que só Virgílios

Podiam louvar Augustos:

É queimar-lhe baixo incenso,

Cansá-lo com versos frios;

Amor respeitoso, e votos

Serão os meus elogios.

Vós, ilustre Vila-Verde,

Com quem sempre me hei achado,

Fazei que seja o meu nome

A seus ouvidos levado:

Se lhe der acolhimento,

Sigamos de Horácio as traças,

Façamos que a par das musas

Marchem as risonhas graças:

Dizei-lhe, que na folhinha,

Com letras douradas pus

Aqueles formosos dias

Das escadas de Queluz;

Aqueles dias ditosos,

Quando a seus pés ajoelhado,

Era ao abrigo das musas

Benignamente escutado;

Quando, lendo já traçado

Melhorar-me os meus destinos,

Se dignava perguntar-me

Como estavam os meninos;

Quando me mandou, que em verso

Contasse como escapara

N’aquele funesto encontro

Dos tais carreiros da Enxara:

E se ainda o favor mereço

De tão alta proteção;

Dizei, que mudei de ofício,

Porém de ventura, não;

Que não me enganam zumbaias

Dos humildes suplicantes;

Porque a bolsa mais sincera

Trata-me inda como d’antes;

Que inda os cães atrás do russo

Esperam n’ele a merenda.

Quando eu vou para Lisboa

Fazendo versos e renda;

Que dando aos ocos ilhais,

Vai marchando triste e só;

Que as mais seges fazem sécia,

Porém que a minha faz dó;

Que até o boçal galego,

Que eu tinha por inocente,

Já me conhece a fraqueza,

E já me revira o dente;

Depois que as velas de sebo

Já cerceia no topete,

E vai conquistar o bairro

De polainas e colete;

Depois que em chapéu de Braga,

Que só põe em dia claro,

Coseu em devota rosca

Candeia de Santo Amaro;

Depois que em destros meneios

O suado corpo bole,

E abre guerra às cozinheiras

Ao som da gaita de fole;

Já responde focinhudo,

E eu me calo as mais das vezes;

Porque, pelos meus pecados.

Sou réu de uns poucos de meses.

Mas, senhor, este episódio

Vai sendo dos arrastados,

O galego veio nele,

Como me vai aos recados:

Se o julgardes enfadonho,

Ao príncipe o não conteis;

Nos fatos da minha vida

À vontade escolhereis:

Pintai-lhe a triste família,

Gritando-me por dinheiro;

Hoje o rol de um alfaiate,

Amanhã o de um tendeiro:

Pintai-lhe um procurador.

Que aqui vem todos os dias

Saber da minha saúde

Da parte das senhorias:

Enfeitai de cor alegre

A funesta narração;

Marcham às vezes os risos

Ao lado da compaixão:

E pois que os vossos esforços

Nunca me tem sido vãos.

Acabai, benigno conde.

Esta obra das vossas mãos:

De um malfadado poeta

Trocai em prazer as penas;

Já diante d’outro Augusto

Fez o mesmo outro Mecenas.