AO CONDE DE VILA-VERDE, D. JOSÉ, DEPOIS MARQUÊS DE ANGEJA
Senhor, eu não sou culpado;
Traçar outros versos quis;
Mas tenho perdido o trilho
Com as trovas do Luiz:
A musa, que há pouco as fez,
Outra rima não me inspira;
Por mais que mordo nas unhas,
E que em vão tempero a lira.
Aceitai meus bons desejos;
E como homem de razão
Não desprezeis baixos versos,
Quando os dieta o coração:
Minhas fiéis expressões.
Filhas de amor e saudade,
O que não tem em poesia,
Lhe vai suprido em verdade.
Enquanto co’as soltas velas.
Forçadas do vento rijo,
Demandava a galeota
Os areais do Montijo;
Enquanto ao príncipe augusto
O pátrio Tejo se humilha,
E sobre os rasgados ombros
Lhe leva a soberba quilha;
Meus olhos, meus tristes olhos,
Nas águas seguindo a esteira,
De lágrimas se arrasavam
Sobre as praias da Junqueira:
Dentro do cansado peito
Se ateou crua peleja;
Senti uma gueira viva
De saudades, e de inveja:
Não era de baixa inveja
Afeto grosseiro e injusto;
Era invejar ao criado
Ir junto a seu amo augusto.
Senhor, não sou atrevido;
Há lugares derradeiros;
O meu desejo me punha
Entre a chusma dos lemeiros;
Com as faces açoutadas
Dos agudos ventos frios,
Entre os borrifos das ondas,
E as pragas dos algarvios;
A Apolo pedindo a lira.
Que só para isto invejo.
Chamara das frias grutas
As louras filhas do Tejo;
Que escutando o som divino
Entre as úmidas moradas,
E levantando nas ondas
Suas cabeças douradas;
De tal hóspede soberbas
O lenho rodeariam;
E as águas c’o branco peito
A porfia lhe abririam:
O fatídico Proteu,
Cheio de saber divino.
Revelara ao novo herói
Os segredos do destino;
Famosas ações cantara,
Levantando a sabia voz,
Moldadas sobre as histórias
Dos augustos pais, e avós.
Mas, senhor, a minha musa
Sem tino ao ar se remonta;
E vai-se metendo em obra,
De que não pode dar conta:
Esta levantada empresa
Até a Boileau deu sustos;
Dizia que só Virgílios
Podiam louvar Augustos:
É queimar-lhe baixo incenso,
Cansá-lo com versos frios;
Amor respeitoso, e votos
Serão os meus elogios.
Vós, ilustre Vila-Verde,
Com quem sempre me hei achado,
Fazei que seja o meu nome
A seus ouvidos levado:
Se lhe der acolhimento,
Sigamos de Horácio as traças,
Façamos que a par das musas
Marchem as risonhas graças:
Dizei-lhe, que na folhinha,
Com letras douradas pus
Aqueles formosos dias
Das escadas de Queluz;
Aqueles dias ditosos,
Quando a seus pés ajoelhado,
Era ao abrigo das musas
Benignamente escutado;
Quando, lendo já traçado
Melhorar-me os meus destinos,
Se dignava perguntar-me
Como estavam os meninos;
Quando me mandou, que em verso
Contasse como escapara
N’aquele funesto encontro
Dos tais carreiros da Enxara:
E se ainda o favor mereço
De tão alta proteção;
Dizei, que mudei de ofício,
Porém de ventura, não;
Que não me enganam zumbaias
Dos humildes suplicantes;
Porque a bolsa mais sincera
Trata-me inda como d’antes;
Que inda os cães atrás do russo
Esperam n’ele a merenda.
Quando eu vou para Lisboa
Fazendo versos e renda;
Que dando aos ocos ilhais,
Vai marchando triste e só;
Que as mais seges fazem sécia,
Porém que a minha faz dó;
Que até o boçal galego,
Que eu tinha por inocente,
Já me conhece a fraqueza,
E já me revira o dente;
Depois que as velas de sebo
Já cerceia no topete,
E vai conquistar o bairro
De polainas e colete;
Depois que em chapéu de Braga,
Que só põe em dia claro,
Coseu em devota rosca
Candeia de Santo Amaro;
Depois que em destros meneios
O suado corpo bole,
E abre guerra às cozinheiras
Ao som da gaita de fole;
Já responde focinhudo,
E eu me calo as mais das vezes;
Porque, pelos meus pecados.
Sou réu de uns poucos de meses.
Mas, senhor, este episódio
Vai sendo dos arrastados,
O galego veio nele,
Como me vai aos recados:
Se o julgardes enfadonho,
Ao príncipe o não conteis;
Nos fatos da minha vida
À vontade escolhereis:
Pintai-lhe a triste família,
Gritando-me por dinheiro;
Hoje o rol de um alfaiate,
Amanhã o de um tendeiro:
Pintai-lhe um procurador.
Que aqui vem todos os dias
Saber da minha saúde
Da parte das senhorias:
Enfeitai de cor alegre
A funesta narração;
Marcham às vezes os risos
Ao lado da compaixão:
E pois que os vossos esforços
Nunca me tem sido vãos.
Acabai, benigno conde.
Esta obra das vossas mãos:
De um malfadado poeta
Trocai em prazer as penas;
Já diante d’outro Augusto
Fez o mesmo outro Mecenas.