AO CONDE DE VILA-VERDE, DEPOIS MARQUÊS DE ANGEJA
Em sege estreita entaipados,
Sol à ilharga, sol por cima,
Vinha eu, e o padre Lima
Cheios de pó, e encalmados.
Eis que na estrada atacados,
Param as mulas baratas;
Cuidei eu que eram piratas,
Que tiram vida e dinheiro;
Fui ver se era o clavineiro,
E achei duas açafatas.
Traziam a arma mais dura,
Que no peito se tem posto;
Traziam ambas no rosto
O respeito, e a formosura.
Querem sege mais segura,
Porque a sua está quebrada;
E enquanto o padre na estrada
Lhe diz palavras pomposas.
As minhas mãos respeitosas
Lhe afoufavam a almofada.
Trabalho infeliz fizeram,
Porque meus fados são tais.
Que aceitando tudo o mais,
A almofada não quiseram.
Debaixo dos pés puderam
Minha obra desprezada.
Senhor, não fazemos nada,
Tomar vãos trabalhos ousas,
Tem todas as minhas cousas
O destino da almofada.
Porém não desesperemos
Da fortuna cega e vária,
Vença-se a maré contrária
A força de vela e remos:
Ao bom porto encaminhemos
Em que ao longe os olhos pus;
Veremos da nova luz
Minha esperança alumiada,
Se aqui houver uma escada.
Como a que houve em Queluz.