AO CONDE DE VILA-VERDE, DEPOIS MARQUÊS DE ANGEJA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Em sege estreita entaipados,

Sol à ilharga, sol por cima,

Vinha eu, e o padre Lima

Cheios de pó, e encalmados.

Eis que na estrada atacados,

Param as mulas baratas;

Cuidei eu que eram piratas,

Que tiram vida e dinheiro;

Fui ver se era o clavineiro,

E achei duas açafatas.

Traziam a arma mais dura,

Que no peito se tem posto;

Traziam ambas no rosto

O respeito, e a formosura.

Querem sege mais segura,

Porque a sua está quebrada;

E enquanto o padre na estrada

Lhe diz palavras pomposas.

As minhas mãos respeitosas

Lhe afoufavam a almofada.

Trabalho infeliz fizeram,

Porque meus fados são tais.

Que aceitando tudo o mais,

A almofada não quiseram.

Debaixo dos pés puderam

Minha obra desprezada.

Senhor, não fazemos nada,

Tomar vãos trabalhos ousas,

Tem todas as minhas cousas

O destino da almofada.

Porém não desesperemos

Da fortuna cega e vária,

Vença-se a maré contrária

A força de vela e remos:

Ao bom porto encaminhemos

Em que ao longe os olhos pus;

Veremos da nova luz

Minha esperança alumiada,

Se aqui houver uma escada.

Como a que houve em Queluz.