AO CONDE DE VILA-VERDE II
Assisti a sagrarão,
Ato, senhor, dos mais sérios,
Que envolve augustos mistérios
Da nossa religião.
Lembrou-me crismar-me então
Por ser ato episcopal;
Por permitir ação tal
Que outro apelido se tome,
Lembrou-me trocar o nome
De mestre em oficial.
Busquei as horas melhores,
E encomendei-me à fortuna;
Cheguei, e para a tribuna
Tinham já ido os senhores.
Pelos frios corredores
O bom Lima me encaminha;
Foi-me pôr na tal portinha
Onde os pretendentes vão
Pôr os joelhos no chão,
E os olhos na rainha.
Co’a cabeça estopetada,
Como quem dorme sem cama,
Roto fumo e alguma lama
Sobre a casaca encarnada,
Vi o tal que grita, e brada,
Quer na sala, quer na rua.
Por mais que trabalha, e sua,
Guarda-roupa é louca ideia:
Como ha de guardar a alheia
Quem trata tão mal da sua?
Ao pé a figura rara
Do pardo cardeal astuto,
Que para cumprir o luto
Lhe basta mostrar a cara.
Dos dois na justiça clara
Grandes fundamentos acho;
Mas fujo mais para baixo,
E dispenso amigos tais,
Por não ficarmos iguais
Na justiça, e no despacho.