AO CONDE DE VILA-VERDE II

By Nicolau Tolentino de Almeida

Assisti a sagrarão,

Ato, senhor, dos mais sérios,

Que envolve augustos mistérios

Da nossa religião.

Lembrou-me crismar-me então

Por ser ato episcopal;

Por permitir ação tal

Que outro apelido se tome,

Lembrou-me trocar o nome

De mestre em oficial.

Busquei as horas melhores,

E encomendei-me à fortuna;

Cheguei, e para a tribuna

Tinham já ido os senhores.

Pelos frios corredores

O bom Lima me encaminha;

Foi-me pôr na tal portinha

Onde os pretendentes vão

Pôr os joelhos no chão,

E os olhos na rainha.

Co’a cabeça estopetada,

Como quem dorme sem cama,

Roto fumo e alguma lama

Sobre a casaca encarnada,

Vi o tal que grita, e brada,

Quer na sala, quer na rua.

Por mais que trabalha, e sua,

Guarda-roupa é louca ideia:

Como ha de guardar a alheia

Quem trata tão mal da sua?

Ao pé a figura rara

Do pardo cardeal astuto,

Que para cumprir o luto

Lhe basta mostrar a cara.

Dos dois na justiça clara

Grandes fundamentos acho;

Mas fujo mais para baixo,

E dispenso amigos tais,

Por não ficarmos iguais

Na justiça, e no despacho.