AO CONDE DO PRADO EMBARCANDO-SE PARA PORTUGAL EM COMPANHIA DE SEU PAY, DEPOlS DE...

By Gregório de Matos Guerra

Generoso Dom Francisco,

mais que Conde Rei do prado,

porque se a Rosa é Rainha,

rei sois vóis, pois sois o Cravo.

Majestoso ramilhete

por cuja causa logramos

trinta e seis meses de flores,

que um mês fizeram de Maio.

Luminar esclarecido,

em quem tanto estão brilhando

as luzidas excelências

desses ascendentes Astros.

Ouvi de meus sentimentos

a voz, inda que o reparo

note, que para a matéria

o instrumento é mui baixo.

Ouvi meus saudosos tonos,

que é bem, Senhor Soberano,

que, quem deu assunto à solfa,

se digne de ouvir os cantos.

Neste papel ponde os olhos,

pois já quisestes dignar-vos

de verdes da minha Musa

noutro tempo outro traslado.

Naquele tempo, então digo,

quando escapei são, e salvo

por vosso bom patrocínio

de mil testemunhos falsos.

Quando viu toda a Bahia

no decurso de três anos

sempre em flor vosso carinho,

nunca murcho o vosso agrado

Aqui mil órgãos quisera,

para que com mil meatos

sempre ferisse os encômios,

onde soam os aplausos.

Mas inda assim não podiam

entender-se os vôos tanto,

que não ficassem sucintos

para elogios tão altos.

Aquele ligeiro monstro,

que nas presunções de alado

pelas plumas marca os vôos,

pelos vôos mede os passos.

Só pode com nova tuba

referir em pregões altos

os timbres da vossa pompa,

as prendas do vosso garbo.

Referirá, Senhor Conde,

que sempre os feitos preclaros

têm por doação dos tempos

da Fama os maiores brados.

Esta vai com grande empenho

desta Praça, para dar-vos

sobre as aras do meu trono

da memória os holocaustos.

Digo, que vai desta Praça,

onde em público teatro

vemos do melhor governo

os mais heróicos ensaios.

Do Mestre as prerrogativas

toquei em hino mais amplo

por ver-se nas lições suas

da pena o primeiro aparo.

Aqui dos seus documentos

nada digo, nada trato,

que pois o assunto é só vosso,

só convosco agora falo.

Só convosco, porque o gênio,

que é para pouco trabalho,

mal pode ser juntamente

Jardineiro, e Lapidário.

Tanto que vos embarcastes,

logo então fiquei notando,

que na falta do presente

se conhece o bem passado.

Por vossa ausência às escuras

fica a terra, e não me espanto,

de que quando o sol se ausenta,

se ausente da Luz os raios.

A vista dos nossos olhos

éreis; com que fica claro,

pois, meu Senhor, vos perdemos,

que sem vós cegos ficamos.

A vossa falta sentimos

geralmente neste estado,

que sentir-se a grande perda

efeito é muito ordinário.

Sente o grande, que não tem

o Prado alegre em Palácio,

o gentil Cravo na rua,

a Flor brilhante no Campo.

Sente igualmente o pequeno

não ter em seus desamparos

abrigo para a tormenta

e tábua para o naufrágio.

Eu sinto, e sentimos todos,

que fosse tão breve o prazo

dos objetos para a vista,

da vista para os regalos.

Mas não podia o triênio,

sendo um bem dos bens humanos,

deixar de incluir o logro

nos termos de momentâneo.

Nesta suposição nossa

concorrem motivos vários

uns por parte dos alívios,

outros em favor dos prazos.

Mas prevalecem as penas,

que os corações magoados,

quando a dor mais dissimulam,

então estão mais penando.

Não permita vossa ausência,

no sentimento intervalos,

que no mal sempre contino

nunca desconsolos faltam.

Vossa saudade gememos

nossa solidão choramos

se na solidão chorosos,

na saudade solitários.

Nesta assistência tão breve

nos mostrou o desengano

não ser para pecadores

o comércio de tal Anjo.