AO D. LOURENÇO DE LIMA, TENDO PROMETIDO AO AUTOR QUE QUANDO CHEGASSE DAS CALDAS ...
Ora do cume dos Montes,
Ora em suas verdes fraldas,
Ia estender os meus olhos
Na longa estrada das Caldas;
Sobre escumosos cavalos
Trotando empoada sege,
Disse quem fez os meus versos
“Aí vem quem os protege;”
Alçando-me, ia a dizer-vos
“Senhor, chegou o meu prazo;
Honrastes hoje outros Montes,
Honrai agora o Parnaso;
“Prometestes fazer férteis
Seus estéreis Mirto, e Loiro;
Prometestes que a Hipocrene
Levaria areias de oiro;
Sua clara, inútil veia
Rega chão, que não se lavra;
Vinde fazê-lo fecundo,
Vinde cumprir-me a palavra.”
Mas, Senhor, não éreis Vós;
Era um Casquilho, e do Povo;
Tornei a pegar nas Contas,
Tomei a esperar de novo;
Mil votos ao céu mandava
Este humilde orador fraco,
Que vos não vissem carreiros,
Nem os ladrões do tabaco;
Então carrancuda noite
Me enxotou co’as negras asas;
E em honra dos tais amigos
Vim como gato por brasas;
Sei, enfim, que já chegastes
Chamou por Vós minha dor,
Venha o ilustre conselheiro
Honrar-se em procurador;
Fazer bem, é mor grandeza;
Deu-vos, também esta, o Pai;
Vós ambos d’entre os meus loiros
Cruas silvas arrancai;
Com piedosa geografia
As paternas mãos benignas,
Emendando ingratos mapas,
Ponham o Pindo nas Minas;
O impressor gosta de Versos;
Quer que os meus públicos andem;
Mas é um tanto acanhado,
Não imprime sem que o mandem;
Ele perdoa o contágio;
Pegai-lhe a minha doença;
Só deixarei de gemer
Em gemendo a sua imprensa;
Assine, pois, meu aviso,
Pia, obedecida mão;
Mas não cuideis que com isso
Dais férias à proteção;
O mais ávido leitor,
Das quintilhas pregoeiro,
Ha de achá-las insofríveis
Em lhe custando dinheiro;
E só em nojosa tenda
De braguês chatim mesquinho
Terão saída os meus versos,
Embrulhando o seu toicinho;
Só rapazes acharão
Minha musa doce, e meiga;
Não porque tenha poesia,
Mas porque teve manteiga;
Metei, pois, Senhor, em brios
Ricos peitos avarentos;
Dizei, que comprem partidas,
Que é honra honrar os talentos;
Que serão, comigo, eternos
Se me evitarem o mal
De ir ao templo da memória
Pela porta do hospital;
E então da escondida burra
Ouvirá a surda aldraba
Não as vozes da poesia,
Mas a voz de quem lha gaba;
Indo abrindo, jurarão
A duas Artes ódio, e medo;
A da Guerra, em alta voz;
A da poesia, em segredo.
Entretanto ao digno pai
Pedi que me faça autor;
Sejam públicos no mundo
Meus versos, e o seu favor;
De Limas na honrosa história
Não serão títulos falsos
Fazer que as augustas artes
Não marchem c’os pés descalços;
E Vós, firme protetor,
Fazei que por tais favores
Vamos beijar-vos a mão,
Eu, e os meus dois mil Credores.