AO D. LOURENÇO DE LIMA, TENDO PROMETIDO AO AUTOR QUE QUANDO CHEGASSE DAS CALDAS ...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Ora do cume dos Montes,

Ora em suas verdes fraldas,

Ia estender os meus olhos

Na longa estrada das Caldas;

Sobre escumosos cavalos

Trotando empoada sege,

Disse quem fez os meus versos

“Aí vem quem os protege;”

Alçando-me, ia a dizer-vos

“Senhor, chegou o meu prazo;

Honrastes hoje outros Montes,

Honrai agora o Parnaso;

“Prometestes fazer férteis

Seus estéreis Mirto, e Loiro;

Prometestes que a Hipocrene

Levaria areias de oiro;

Sua clara, inútil veia

Rega chão, que não se lavra;

Vinde fazê-lo fecundo,

Vinde cumprir-me a palavra.”

Mas, Senhor, não éreis Vós;

Era um Casquilho, e do Povo;

Tornei a pegar nas Contas,

Tomei a esperar de novo;

Mil votos ao céu mandava

Este humilde orador fraco,

Que vos não vissem carreiros,

Nem os ladrões do tabaco;

Então carrancuda noite

Me enxotou co’as negras asas;

E em honra dos tais amigos

Vim como gato por brasas;

Sei, enfim, que já chegastes

Chamou por Vós minha dor,

Venha o ilustre conselheiro

Honrar-se em procurador;

Fazer bem, é mor grandeza;

Deu-vos, também esta, o Pai;

Vós ambos d’entre os meus loiros

Cruas silvas arrancai;

Com piedosa geografia

As paternas mãos benignas,

Emendando ingratos mapas,

Ponham o Pindo nas Minas;

O impressor gosta de Versos;

Quer que os meus públicos andem;

Mas é um tanto acanhado,

Não imprime sem que o mandem;

Ele perdoa o contágio;

Pegai-lhe a minha doença;

Só deixarei de gemer

Em gemendo a sua imprensa;

Assine, pois, meu aviso,

Pia, obedecida mão;

Mas não cuideis que com isso

Dais férias à proteção;

O mais ávido leitor,

Das quintilhas pregoeiro,

Ha de achá-las insofríveis

Em lhe custando dinheiro;

E só em nojosa tenda

De braguês chatim mesquinho

Terão saída os meus versos,

Embrulhando o seu toicinho;

Só rapazes acharão

Minha musa doce, e meiga;

Não porque tenha poesia,

Mas porque teve manteiga;

Metei, pois, Senhor, em brios

Ricos peitos avarentos;

Dizei, que comprem partidas,

Que é honra honrar os talentos;

Que serão, comigo, eternos

Se me evitarem o mal

De ir ao templo da memória

Pela porta do hospital;

E então da escondida burra

Ouvirá a surda aldraba

Não as vozes da poesia,

Mas a voz de quem lha gaba;

Indo abrindo, jurarão

A duas Artes ódio, e medo;

A da Guerra, em alta voz;

A da poesia, em segredo.

Entretanto ao digno pai

Pedi que me faça autor;

Sejam públicos no mundo

Meus versos, e o seu favor;

De Limas na honrosa história

Não serão títulos falsos

Fazer que as augustas artes

Não marchem c’os pés descalços;

E Vós, firme protetor,

Fazei que por tais favores

Vamos beijar-vos a mão,

Eu, e os meus dois mil Credores.