Ao decênio de Castro Alves

By João da Cruz e Sousa

No espadanar das espumas

Que vão à praia saltar!

Nos ecos das tempestades

Da bela aurora ao raiar,

Um brado enorme, profundo,

Que faz tremer todo o mundo

Se deixa logo sentir!

E como o brado solene,

Ingente, celso, perene,

É como o brado: — Porvir!

Pergunta a onda: — Quem é?...

Responde o brado: — Sou eu!

Eu sou a Fama, que venho

C’roar o vate, o Criseu!

Dormi, meu Deus, por dez anos

E da natura os arcanos

Não posso todos saber!

Mas como ouvisse louvores

De glória, gritos, clamores,

Também vim louros trazer.

Fatalidade! — Desgraça!

Fatalidade, meu Deus!

Passou-se um gênio tão cedo,

Sumiu-se um astro nos céus!

As catadupas d’ideias,

De pensamento epopeias

Rolaram todas no chão!

Saindo a alma pra glória

Bradou pra pátria — vitória!

Já sou de vultos irmão!

Foi Deus que disse: — Poeta,

Vem decantar a meus pés.

Na eternidade há mais luz,

Dão mais valor ao que és.

Se lá na terra tens louros,

Receberás cá tesouros

De muitas glórias até!

Terás a lira adorada

C’o divo plectro afinado

De Dante, Tasso e Garret!

Então na terra sentiu-se

Um grande acorde final!

O belo vate brasílio

Pendeu a fronte imortal!

O negro espaço rasgou-se

E aquele gênio internou-se

Na sempiterna mansão.

A sua fronte brilhava

E o áureo livro apertava

Sereno e ledo na mão...

E o mundo então sobre os eixos

Ouviu-se logo rodar!

É que ele mesmo estremece

A ver um vulto tombar.

É que na queda dos entes

Que são na vida potentes,

Que têm nas veias ardor,

Há cataclismos medonhos

Que só sentimos em sonhos

Mas que nos causam terror!...

E o coração s’estortega

E s’entibia a razão!

No peito o sangue enregela

E logo a história diz: — Não!

Não chore a pátria esse filho,

Se procurou outro trilho

Também mais glórias me deu!

E quando os séculos passarem

Se hão de tristes curvarem

Enquanto alegre só eu?...

Oh! Basta! Basta! Silêncio!

Repousa, vate, nos Céus!

Que muito além dos espaços

Os cantos subam dos teus!

Se nesta vida d’enganos

Não são bastante os humanos

Pra te render ovações!

Perdoa os fracos, ó gênio,

Que pra cantar teu decênio

Somente Elmano ou Camões!