AO DEPUTADO DOMINGUES PIRES MONTEIRO BANDEIRA

By Nicolau Tolentino de Almeida

A ti, amável Bandeira,

Partidista da Verdade,

E de quem tenho mil provas,

Que o és também da amizade:

Que são filósofo vives,

E o mesmo morrer protestas,

À exceção de me dares

Bilhete de boas festas:

Tolentino firme amigo

Inda quando o mundo caia,

E a quem obrigas a sê-lo

Desde a rua da Atalaia,

Deseja pura alegria,

Saúde, e muito vintém;

Deseja-te tudo aquilo,

Que ele quase nunca tem.

Pois, que chuva e negros ventos

Me fecham a porta e o dia,

E em casa apontam cuidados,

Redobrada bateria;

Pois que a horrível solidão

Aviva a ideia cruel

Da gaveta, vão sepulcro

Do agonizante quartel.

E a engenhosa hipocondria

Me mete no antigo empenho

De jurar, que estou morrendo

Das moléstias, que não tenho,

Vou ver se posso esquivar-me

A tanto mortal imigo,

Acolhendo-me ás lembranças

Do nosso bom tempo antigo;

Tem a solta fantasia

Farto, milagroso armário;

Cura-me penas reais

Com prazer imaginário;

O nosso bom tempo antigo!

Quando alçando a torva fronte

Jantava Quintiliano

À mesa de Anacreonte;

Quando nos brilhantes copos

Do casto, herdado Gorisos,

Iam mergulhar as asas

Os Prazeres com os risos;

Quando em renhidas disputas

Metias traidora mão,

Sendo o motivo da guerra

Solapada mangação.

E sem haver lindos olhos,

Sem haver ondadas tranças,

Doidos com doidos teciam

Turbulentas contradanças.

Quando o assustado ministro,

Que as margens do douro trilha,

Pôde salvar da procela

A sua estimável bilha.

Clama em vão por tão bom tempo

Minha discreta saudade;

Doce, fugitivo tempo,

Da nossa doirada idade!

Ante meus olhos saudosos

Cruas asas despregou;

E em câmbio de tantos bens,

Cãs e rugas me deixou.

Só tu podes, caro amigo,

Virar-lhe o voo apressado;

E fazer que ele me traga

Outra vez o meu reinado:

Não peço bruxos prestígios,

Basta ouvires meu alvitre,

Põe a rua da Atalaia

Na calçada do Salitre;

Prepara farta vingança

A meus compridos jejuns;

Lança, em nome da amizade,

Mais nozes aos teus peruns;

Lance fumo a faca tinta

Nas vítimas degoladas;

Revoem pelo quintal

As penas ensanguentadas;

Tornem a dar os teus lares

Guarida à minha desgraça;

Tornem a ter teus amigos

Polido Isidro de graça;

Vai na franca, lauta mesa,

Versos ouvindo, e tecendo;

Entre as musas, entre as graças

Vai, a rir, empobrecendo;

Correntes do Douro, e Reno

Escaldem meu estro fraco;

Abram-me o templo de Apolo

Atrevidas mãos de Baco;

Solte o rosado taful

A falsa eloquência sua;

E marche pelas ciências

Como marcha pela rua;

É alma das companhias,

Alegres mesas governa;

Depois de estar assentado,

Não conheço melhor perna;

Tomando amolada faca

Teu sisudo capitão,

Nos demonstre, sobre hum lombo,

A guerra do Rossilhão;

Alisa assim, caro Amigo,

Meu velho, engelhado couro;

Manda às Parcas, que o meu fio,

Já que é curto, seja de ouro.

Dá brando ouvido a meus rogos;

Teu bom peito em bem os tome;

Não te fala vil lisonja,

Fala-te a amizade, e a fome:

E tu, dia tormentoso,

Que abalas velhas trapeiras,

Que o telhado me arrepias,

Que me ensopas as esteiras;

Que em meus reumáticos ossos

Assentas pesado açoite;

E sobre medonhas nuvens,

Me mandas de tarde a noite;

Serás o dia mais alvo,

Que em meus largos anos levo,

Se for aceita esta carta,

Que à tua má luz escrevo;

Chamarei zéfiros brandos

A teus roucos ventos frios,

Se hoje resolve o Bandeira

Dar de comer a vadios.