AO DEPUTADO DOMINGUES PIRES MONTEIRO BANDEIRA
A ti, amável Bandeira,
Partidista da Verdade,
E de quem tenho mil provas,
Que o és também da amizade:
Que são filósofo vives,
E o mesmo morrer protestas,
À exceção de me dares
Bilhete de boas festas:
Tolentino firme amigo
Inda quando o mundo caia,
E a quem obrigas a sê-lo
Desde a rua da Atalaia,
Deseja pura alegria,
Saúde, e muito vintém;
Deseja-te tudo aquilo,
Que ele quase nunca tem.
Pois, que chuva e negros ventos
Me fecham a porta e o dia,
E em casa apontam cuidados,
Redobrada bateria;
Pois que a horrível solidão
Aviva a ideia cruel
Da gaveta, vão sepulcro
Do agonizante quartel.
E a engenhosa hipocondria
Me mete no antigo empenho
De jurar, que estou morrendo
Das moléstias, que não tenho,
Vou ver se posso esquivar-me
A tanto mortal imigo,
Acolhendo-me ás lembranças
Do nosso bom tempo antigo;
Tem a solta fantasia
Farto, milagroso armário;
Cura-me penas reais
Com prazer imaginário;
O nosso bom tempo antigo!
Quando alçando a torva fronte
Jantava Quintiliano
À mesa de Anacreonte;
Quando nos brilhantes copos
Do casto, herdado Gorisos,
Iam mergulhar as asas
Os Prazeres com os risos;
Quando em renhidas disputas
Metias traidora mão,
Sendo o motivo da guerra
Solapada mangação.
E sem haver lindos olhos,
Sem haver ondadas tranças,
Doidos com doidos teciam
Turbulentas contradanças.
Quando o assustado ministro,
Que as margens do douro trilha,
Pôde salvar da procela
A sua estimável bilha.
Clama em vão por tão bom tempo
Minha discreta saudade;
Doce, fugitivo tempo,
Da nossa doirada idade!
Ante meus olhos saudosos
Cruas asas despregou;
E em câmbio de tantos bens,
Cãs e rugas me deixou.
Só tu podes, caro amigo,
Virar-lhe o voo apressado;
E fazer que ele me traga
Outra vez o meu reinado:
Não peço bruxos prestígios,
Basta ouvires meu alvitre,
Põe a rua da Atalaia
Na calçada do Salitre;
Prepara farta vingança
A meus compridos jejuns;
Lança, em nome da amizade,
Mais nozes aos teus peruns;
Lance fumo a faca tinta
Nas vítimas degoladas;
Revoem pelo quintal
As penas ensanguentadas;
Tornem a dar os teus lares
Guarida à minha desgraça;
Tornem a ter teus amigos
Polido Isidro de graça;
Vai na franca, lauta mesa,
Versos ouvindo, e tecendo;
Entre as musas, entre as graças
Vai, a rir, empobrecendo;
Correntes do Douro, e Reno
Escaldem meu estro fraco;
Abram-me o templo de Apolo
Atrevidas mãos de Baco;
Solte o rosado taful
A falsa eloquência sua;
E marche pelas ciências
Como marcha pela rua;
É alma das companhias,
Alegres mesas governa;
Depois de estar assentado,
Não conheço melhor perna;
Tomando amolada faca
Teu sisudo capitão,
Nos demonstre, sobre hum lombo,
A guerra do Rossilhão;
Alisa assim, caro Amigo,
Meu velho, engelhado couro;
Manda às Parcas, que o meu fio,
Já que é curto, seja de ouro.
Dá brando ouvido a meus rogos;
Teu bom peito em bem os tome;
Não te fala vil lisonja,
Fala-te a amizade, e a fome:
E tu, dia tormentoso,
Que abalas velhas trapeiras,
Que o telhado me arrepias,
Que me ensopas as esteiras;
Que em meus reumáticos ossos
Assentas pesado açoite;
E sobre medonhas nuvens,
Me mandas de tarde a noite;
Serás o dia mais alvo,
Que em meus largos anos levo,
Se for aceita esta carta,
Que à tua má luz escrevo;
Chamarei zéfiros brandos
A teus roucos ventos frios,
Se hoje resolve o Bandeira
Dar de comer a vadios.