AO DESEMBARGADOR SEBASTIÃO ANTONIO SOBRAL
Bom Sobral, o que eu te disse
É, a meu pesar, verdade;
Sonoros, amenos versos,
São obra da mocidade;
Mandaste que em Crescentini;
Louvando a doce harmonia,
O que o mundo diz em prosa,
Eu lho enfeitasse em poesia;
Que invocando as brandas musas,
Encostada ao peito a lira;
Cante os ternos sentimentos,
Que ele nas almas inspira;
Moço Sobral, tu ignoras
Da inerte velhice os danos;
Nesta fria testa brigão,
Co’ teu preceito, os meus anos:
Que importa, que a uma orelha
A tua voz respeitada
Me mande afinar a lira
Há dez anos pendurada,
Se à outra me diz Apolo,
Que eu sou já dos reformados;
Que em seu tribunal não tornam
A servir aposentados?
Longa idade, é longo mal;
Velho, só é bom o amigo;
O teu mesmo Crescentini
Há de provar o que eu digo:
Este homem, que a seu arbítrio
Move as humanas paixões;
Que traz na sua voz o cetro
Dos sensíveis corações;
Que nos deixa duvidosos
Quais forças maiores são,
Se os encantos da harmonia,
Ou se a viveza da ação;
Que em mim, que sou homem duro,
E rebelde às leis primeiras;
Que não choro nos mais homens
As desgraças verdadeiras;
Que, insensível, vi no circo
Burlesco Neto arrastado
Deixar co’a rota cabeça
O terreno ensanguentado;
Que vejo com olhos secos,
Com firme semblante inteiro,
Fugir-me num parolim
O meu último dinheiro;
Que em mim, digo, arranca pranto;
Que amolga um peito de seixo;
Que muita vez e o chapéu
Encubro o trêmulo queixo;
Que quando dos tenros filhos
Chorava o triste destino,
Tinha este peito de bronze
O coração de Sabino;
Este homem, que solto o pano,
Vivas vem à força ouvir;
Se cantar de hoje a dez lustros,
Em vez de chorar, faz rir;
Sobre os levantados ares
A envergonhada harmonia,
Batendo apressadas asas,
Do seu filho fugiria;
E o Jerônimo estendido
Co’as pernas nos tamboretes,
Cabeceara entre as rimas
Dos ociosos bilhetes;
E cuidavas tu, que a foice
Que a tais dons há de pôr fim,
Que há de ferir Crescentini,
Me tinha poupado a mim?
Se eu hoje fosse aos Outeiros,
Onde já tive elogios,
Dir-me-iam cruéis verdades
Mil sinceros assobios;
Este gênio dos Poetas
É fugitivo, e mesquinho;
À primeira cã nos deixa
Na metade do caminho;
Não é irmão do teu gênio,
Este estende mão segura;
Acompanha os seus validos
À borda da sepultura;
Fará que sempre as desgraças
Em tristes peitos emendes;
Que sigas sempre os exemplos,
Que dentro de casa aprendes;
Lastima, pois, minhas rugas,
Que até me causam o mal
De faltar ao teu preceito,
E a louvar um homem tal;
Mas vasto, cheio teatro,
Que ele encalma em tempo frio,
Fala melhor, que dez odes,
He mais útil elogio;
E nele estas velhas mãos
Co’as forças que nascem d’alma,
Darão, em lugar de Versos
Muito pinto, e muito palma.