AO DESEMBARGADOR SEBASTIÃO ANTONIO SOBRAL

By Nicolau Tolentino de Almeida

Bom Sobral, o que eu te disse

É, a meu pesar, verdade;

Sonoros, amenos versos,

São obra da mocidade;

Mandaste que em Crescentini;

Louvando a doce harmonia,

O que o mundo diz em prosa,

Eu lho enfeitasse em poesia;

Que invocando as brandas musas,

Encostada ao peito a lira;

Cante os ternos sentimentos,

Que ele nas almas inspira;

Moço Sobral, tu ignoras

Da inerte velhice os danos;

Nesta fria testa brigão,

Co’ teu preceito, os meus anos:

Que importa, que a uma orelha

A tua voz respeitada

Me mande afinar a lira

Há dez anos pendurada,

Se à outra me diz Apolo,

Que eu sou já dos reformados;

Que em seu tribunal não tornam

A servir aposentados?

Longa idade, é longo mal;

Velho, só é bom o amigo;

O teu mesmo Crescentini

Há de provar o que eu digo:

Este homem, que a seu arbítrio

Move as humanas paixões;

Que traz na sua voz o cetro

Dos sensíveis corações;

Que nos deixa duvidosos

Quais forças maiores são,

Se os encantos da harmonia,

Ou se a viveza da ação;

Que em mim, que sou homem duro,

E rebelde às leis primeiras;

Que não choro nos mais homens

As desgraças verdadeiras;

Que, insensível, vi no circo

Burlesco Neto arrastado

Deixar co’a rota cabeça

O terreno ensanguentado;

Que vejo com olhos secos,

Com firme semblante inteiro,

Fugir-me num parolim

O meu último dinheiro;

Que em mim, digo, arranca pranto;

Que amolga um peito de seixo;

Que muita vez e o chapéu

Encubro o trêmulo queixo;

Que quando dos tenros filhos

Chorava o triste destino,

Tinha este peito de bronze

O coração de Sabino;

Este homem, que solto o pano,

Vivas vem à força ouvir;

Se cantar de hoje a dez lustros,

Em vez de chorar, faz rir;

Sobre os levantados ares

A envergonhada harmonia,

Batendo apressadas asas,

Do seu filho fugiria;

E o Jerônimo estendido

Co’as pernas nos tamboretes,

Cabeceara entre as rimas

Dos ociosos bilhetes;

E cuidavas tu, que a foice

Que a tais dons há de pôr fim,

Que há de ferir Crescentini,

Me tinha poupado a mim?

Se eu hoje fosse aos Outeiros,

Onde já tive elogios,

Dir-me-iam cruéis verdades

Mil sinceros assobios;

Este gênio dos Poetas

É fugitivo, e mesquinho;

À primeira cã nos deixa

Na metade do caminho;

Não é irmão do teu gênio,

Este estende mão segura;

Acompanha os seus validos

À borda da sepultura;

Fará que sempre as desgraças

Em tristes peitos emendes;

Que sigas sempre os exemplos,

Que dentro de casa aprendes;

Lastima, pois, minhas rugas,

Que até me causam o mal

De faltar ao teu preceito,

E a louvar um homem tal;

Mas vasto, cheio teatro,

Que ele encalma em tempo frio,

Fala melhor, que dez odes,

He mais útil elogio;

E nele estas velhas mãos

Co’as forças que nascem d’alma,

Darão, em lugar de Versos

Muito pinto, e muito palma.