AO DEZEMBARGADOR DIONIZIO DE AVILA VARREYRO OUVIDOR GERAL DO CIVEL DESTE ESTADO ...

By Gregório de Matos Guerra

Herói Númen, Herói soberano,

Cujo esforço, e conceito peregrino

Transcende os termos do limite humano,

E quase logra foros de divino:

Ouvi, se é, que as grandezas do Oceano

Cabem neste clarim tão pouco fino,

Que mais preclara tuba, e voz merece

Quem a tamanhas cousas se oferece.

Tu, que abres o cristal da Aônia fonte,

Ó doce Musa, se até agora ingrata,

Solta a corrente, porque em verso conte,

O que só cabe em lâminas de prata:

Fecunde esse cristal tão duro monte,

Que se fluido, e belo se desata.

Eu farei, que se admire no universo

Se tão sublime preço cabe em verso.

Sê pródiga comigo, porque vejo,

Que hei de cantar proezas levantadas,

E do ouro, que cria o Lago Tejo

Te farei uns pendentes, e arracadas:

Põe, Musa amada, fim ao meu desejo,

E terás para o colo as congeladas

Lágrimas puras, e no dedo amante

Outra pedra mais clara, que diamante.

Nesta do mundo a mais mimosa parte,

Em cujo soberano, e fértil pólo

Vos reconhece o mundo novo Marte,

Onde vos representa novo Apolo:

Inculcando o valor, engenho, e arte

Inveja dos murmúrios de Pactolo,

Mostrastes nesta ação, que tudo alcança

Em uma mão a pena e noutra a lança.

Para vencer os fortes adversários

Vibrastes valeroso a dura espada,

Para prender aspérrimos contrários

Inculcastes idéia celebrada:

Valor, e engenho foram necessários,

Porque soubesse a fama remontada,

Partistes tão guerreiro, quão fecundo

Ameaçando terra, mar, e mundo.

Com insultos, e roubos aleivosos

Não perdoando vida, casa, ou muro

Trinta e sete cruéis facinorosos

Roubam a Povoação Porto Seguro:

Para castigo destes criminosos

O fado destinou celeste, e puro

Esse braço, esse peito, esse conselho

Para leais vassalos claro espelho.

Eram tiranos tais, e de tal sorte,

Que com nenhuma valia o medo, ou rogo,

Despojavam, feriam, davam morte,

Os povos assolando a ferro, e fogo

Qual atrevido rompe o muro forte,

Qual temerário cerca a casa logo,

Qual sem mudar cor, gesto, ou semblante

Salteia o descuidado caminhante.

Incultas matas nunca penetradas,

Subterrâneas cavernas, triste seio

Destes vandidos eram as moradas

Do maior coração maior recreio:

Aqui com tiranias desusadas

Era comum no roubo o bem alheio,

Deixando os povos, sítio, bens, e gados

Mortos, perdidos, e desbaratados.

Esta pública fama, que amedrenta

A todo coração, a todo peito,

Do Númen Português o braço alenta,

Que iguala seu valor ao seu conceito:

Intrépidos elege a cincoenta

Bem prevenidos para o grande efeito

Únicos escolhidos na Bahia

Dos belicosos peitos, que em si cria.

Luzidos todos, todos bem armados

O sítio buscam dos cruéis vandidos:

Voam as plumas, pendem os traçados,

E os perros das clavinas dão latidos:

Lestos vão bacamartes carregados,

E os peitos mais seguros que luzidos,

Rijos estoques, carregadas clavas,

Partesanas agudas, chuças bravas.

Mais forte, mais bizarro, mais ufano

O invicto cabo para a empresa parte,

Por arnês leva o peito do Tebano,

No talim por espada o mesmo Marte:

Em uma mão aperta o ferro cano,

Na outra o freio, e inquirindo à parte

Todo o valor, que leva por muralha

Rompe, corta, desfaz, abola, e talha.

Qual raio, que o trovão tem despendido

Contra a Nau sobre o túmido alabastro,

E tendo-a a voraz fogo reduzido

Em mil pedaços faz o grande mastro:

Tal se mostrou nas matas o temido

Contra os imigos valeroso Astro:

Prostrando tudo sem temer agouros

Com ferro, fogo, setas, e pilouros.

Chegada a belicosa companhia

Do capitão valente industriada

Logo correu a fama, em como ia

E fugiu para o mato a gente irada:

Não sofrem dilatação os da Bahia

Intrépidos buscando a emboscada,

Qualquer na mata salta tão ligeiro

Que nenhum dizer pode, que é primeiro.

Não val aos criminosos força, manha,

Golpes, reveses, tiros, e ameaços,

Mas buscando o seguro da montanha

Livrando as vidas vão nos próprios passos.

O Herói com os seus os acompanha,

Que é mais que humano esforço o de seus braços:

Bem se vê, porque em caso tão veemente,

Mais peleja o favor do céu, que a gente.

Dentro do bosque teatro enfim eleito

Se trava a briga de uma, e outra parte,

Quebra-se a espada, e sem romper o peito,

Que há Deus mais poderoso, que o Deus Marte:

Zune o pilouro sem fazer efeito,

Voa a seta, porém a si se parte,

Que quis Deus despertar no ato presente

Com tal milagre os ânimos da gente.

Teme o bando inimigo a resistência

Da belicosa, e forte companhia,

Vendo ali com certíssima evidência,

Que o Céu propício a todos defendia:

Trata da fuga, deixa a competência

Última resolução da cobardia:

O Céu o quis assim: porque se veja,

Que quem resiste, contra si peleja.

Fogem cobardes, que é cobarde o vício

Tratando a cara vida com despego,

Qual porventura acha o precipício

Qual acha dita em se botar ao pego:

Não tendo já da liberdade indício

O criminoso bando iníquo, e cego,

Antes quer a mor risco aventurar-se

Que nas mãos inimigas entregar-se.

Nada lhe val que o Cabo diligente

Futuros antevendo, inopinados,

Fiado em Deus anima a sua gente

Talvez com a espada, e tal com os brados:

Esta é ocasião (diz o valente

Jurisconsulto aos férvidos soldados)

Que sempre alcançará fama perfeita

Quem do oportuno tempo se aproveita.

Isto ouvindo os belígeros guerreiros,

Bem que a maleza inculta os embaraça,

Raivosos acometem, quais rafeiros

Quando armado a novilho vêem na praça:

Rende-se o bando a tais aventureiros,

Que em duas cordas a um, e outro enlaça:

Assim o Cabo pôs em dura liga

A vil malícia, pérfida, inimiga.

Prende homicida a mão a dura algema,

Ao pescoço grilhão férreo, e seguro,

Não porque o Númen seu esforço tema,

Mas por exemplo ao século futuro:

Qual temendo o patíbulo blasfema,

Qual por desesperado está seguro,

Temendo suas culpas desta sorte

Que o menor mal de todos seja a morte.

Enquanto ao ar os gritos atroavam,

Que os céus, e os corações duros feriam,

O seu mesmo despojo lhes mostravam,

Que com dobrada pena alheio viam:

Pistolas, e espingardas, que atiravam,

Duros alfanjes, que um arnês abriam,

Guarnecendo-se tudo, o que se alega,

Do metal, que a fortuna a tantos nega.

Enfim permitiu Deus, que tudo ordena,

Esta ação, tão feliz, tão venturosa

Sem ferida, estocada alguma ou pena

Entre gente tão árdua, e belicosa:

Milagre augusto foi da Mão serena

Divina em tudo, em tudo poderosa,

Só um índio dirá com voz sentida

Esta perna trouxe eu de lá ferida.

Alegre com a empresa desejosa

Corta o Cabo a espessura, e busca a via,

Não faltando da esquadra criminosa

Algum, que não prendesse neste dia:

Marcha triunfando a gente belicosa,

Pasmam de ver os Filhos da Bahia

O sucesso, a prisão, os Rebelados,

As armas, e os varões assinalados.

Já divulgava a fama a novidade

Pela gente em contorno mais distante,

Porque as ruas pisava da cidade

O Númen dos vandidos triunfante:

Por ver o herói brasão da eternidade

O Povo corre, e muda de semblante:

Enchem a praça, ruas, e janelas

Velhos, e Moços, Damas e Donzelas.

Qual Paulo Emílio, quando entrou por Roma

Com Perseu preso, e sua fidalguia,

Sendo o despojo, que recolhe, e toma

Quatrocentas coroas, que trazia:

Vós mereceis mais numerosa soma,

Porque unindo ciência à valentia

Mereceis as marciais, também as de ouro

Do Bacaro, e do sempre verde Louro.

Chega a Palácio, onde é recebido

Com alegria, amor, e autoridade:

E depois que o sucesso foi ouvido,

Pôs o despojo aos pés da Majestade:

O Governador sábio, e entendido

De Pedro imagem, vendo a lealdade,

Valor, prudência, e esforço do sujeito

Tais palavras tirou do esperto peito.

Esse despojo, ó Herói sublimado,

Como de armas te foi, armas te sejam,

Com teu esforço insigne as tens ganhado,

No teu escudo eternamente estejam

Por elas conhecido, e afamado

Serás entre os Heróis, que mais se invejam,

Que bem merece ter armas por glória

Quem faz obras tão dignas de memória.

Debuxa em bronze, ou metal luzido

Insígnias tais, escreve este letreiro

“São as armas do sábio, e do temido

Dionísio de Ávila Varreiro”

Elas por este nome alto, e subido

Nome terão em todo o mundo inteiro:

Tu por elas lugar te tem a idade

No templo da suprema eternidade.

Essas armas com estes caracteres

Pinta no escuro de ouro transparente,

Porque o mundo conheca, sempre seres

Por Letras, e por armas excelente:

Desde a Tétis furiosa e flava Ceres

Teu nome se eternize permanente

Levando-o por assunto à doce Clio

Desde o trópico ardente ao cinto frio.

Assim disse, e parou, e eu assim faço,

Suspendendo a corrente à veloz Musa,

Pois quanto mais dissera, fora a um Traço

Breve gota das águas de Aretusa:

Não cabe a larga via em breve passo,

Dar conceitos a idéia já recusa,

E prosseguir mais avante fora erro,

Ainda que eu tivera a voz de ferro.