AO DOUTOR ANTONIO RODRIGUES DA COSTA CAVALHEYRO DO HABITO CHRISTO, CHEGANDO DE PORTUGAL COM HUM VESTIDO VERDE, E CANHÕES DE VELUDO, O QUAL SE FEZ ABORRECIDO DO POETA POR MAO LETRADRO, E JURISTA INTRUSO.

By Gregório de Matos Guerra

Quem vos viu na terra entrar

com libréia de Lacaio

verde cor de papagaio,

que há de vos esperar?

haveis de papagaiar,

e fazer tal garalhada,

que fique a gente pasmada

com raiva, e sem paciência

vendo a Casa da audiência

reduzida em milharada.

As mangas veludo inteiro,

e a roupeta verde pano

é libréia em todo o ano

da grande casa de Aveiro:

Vós sois tão vil malhadeiro,

que não pode a minha idéia

presumir, que tão má preia

serviu tão alto solar,

salvo vós por vos honrar

lhe furtastes a Libréia.

Bem é verdade constante,

que éreis na praça, e na feira

um prólogo do Fronteira,

pois lhe íeis sempre diante:

que essa Libréia flamante

fez ele para uma tropa

de Lacaios fraca roupa

em uns touros como uns ouros,

e por seres contra os touros,

vos lançou de si Europa.

Daqui a gente malvada

vendo-vos na cara um zás,

não cuida, que foi gilvaz,

mas cuida, que foi cornada:

vós fostes na Lacaiada,

quando o Marquês à espanhola

quantos touros vê, degola,

e bem que andastes na praça,

suposto que sois caraça,

contudo não sois carola.

E como o parto suposto

é delito atroz, e grave,

tendes na cara esse cabe

por lacaio pressuposto:

dá-me grandíssimo gosto

ver-vos ir peão peão

co’a capa arrastando o chão,

pois a crer, que sois me arrisco

na cinza de São Francisco

São Ivo da procissão.

A ver-vos com sobrecéu

fôreis em retrato fiel

Rainha Santa Isabel

sem rosas, mas com chapéu:

ganhais por isso o troféu

aos advogados, porquanto

a todos excedeis tanto,

que ainda dos condenados

os demais são advogados,

contudo vós sois o Santo.

Só vós sabeis, quanto a mim,

os prelúdios, que fazeis,

Casus est iste, dizeis,

reverente: é grão Latim!

dissera um vilão ruim

tirado ant’onte das cabras

tais latins, nem tais palavras?

vá lavar-se ao mar Euxino

o latim do Calepino,

e o do Padre Manuel Abrás.

Ó lacaio alatinado,

ó macarrônico ilustre,

ó Jurista balaústre

ao machado torneado!

pois sois tão grande Letrado,

vede, que dizem doutores,

que os Rábulas ladradores

por isso cães se chamavam,

porque aos ouvidos ladravam

dos míseros pleiteadores.

Cuidais, caraça de broma,

que as Leis dos Imperadores

se hão de levar a clamores,

como a espada as de Mafoma?

se a língua vos dá, que coma,

pode dar-vos, que jejue,

e bem que a pança se atue

com gritos, pode a Bahia

acordar sisuda um dia,

e é força descontinue.

Com homens, que têm por pulha

tomar-vos por seu Lacaio,

nem heis de ser papagaio,

nem menos heis de ser grulha:

navegai por outra agulha,

e atai melhor vossos molhos,

porque em chegando aos abrolhos

a ressaca muita, ou pouca,

se não tapares a boca,

há de fechar-vos os olhos.