AO GOVERNADOR D. JOÃO D’ALENCASTRE QUANDO MANDOU PRENDER AO AUCTOR PAR...
Não há mais tirano efeito,
que padecer, e calar
ter boca para falar,
e não falar por respeito.
Que hoje à força meu fado
um Governador envolto,
que, por ser na língua solta,
seja no discurso atado:
velhacamente informado
formou de mim tal conceito:
porém (salvo o seu respeito)
fazer-me a defesa pausa,
havendo mentir a causa,
Não há mais tirano efeito.
Já não há bem, e conheço
que neste presente abalo
padeço mais, do que calo,
calo mais, do que padeço:
porém, Senhor, se eu mereço
nos dous extremos votar,
se qualquer me há de ultrajar,
tenho a melhor padecer,
antes falar, e morrer,
Que padecer, e calar.
Eu tenho a língua embargada
aqui, que se a não tivera,
cousa boa não dissera,
fizera cousa falada:
tudo digo neste nada,
nada faço em me explicar;
assim quero-me calar,
porque no presente ano
só pode qualquer magano
Ter boca para falar.
Serei qual melão letrado
com bem estranho sentido,
que hei de ser mais entendido,
quando estiver mais calado:
mande-me já degradado
por sentença, ou de perceito,
ao mar largo, ou mar estreito,
onde os campos de Zafir
com respeito me hão de ouvir,
E não falar por respeito.