AO JUIZ DO CRIME DE ANDALUZ DANDO-LHE ESTE PARTE QUE ESTAVA PARA CASAR E MOSTRAN...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Manoel, muda o cuidado,

Abafa essa chama ardente:

Não falia um são a um doente;

Fala-te outro exp’rimentado.

Já servi ao deus do engano.

Forte com forças alheias.

Passei nas suas cadeias

Após um ano outro ano.

Prometeu-me alto favor;

Mas sabe, pois que começas.

Que o que tive das promessas

Foram lágrimas e dor.

Não te deixes enganar

Do rosto brando, e sereno:

Tempera em riso o veneno;

Afaga para matar.

Com mil modos atrativos

Chama a cega, e incauta gente:

Lança-lhe dura corrente,

E escarnece dos cativos.

Como trata os infelizes,

Que andou outrora amimando,

Meu peito to está mostrando

Nestas frescas cicatrizes.

Até em cousas de pela

Quer mostrar o seu rigor:

Faz entrar num prosador

A mania de poeta.

Mas esses laços que trazes,

Dom desse deus inimigo,

Talvez que sejam castigo

D’outras prisões, que tu fazes.

Fere a muitos tua mão,

Inda que tanto a reprimes,

E vens a pagar teus crimes

Com pena de Talião.