AO JUIZ DO CRIME DE ANDALUZ DANDO-LHE ESTE PARTE QUE ESTAVA PARA CASAR E MOSTRAN...
Manoel, muda o cuidado,
Abafa essa chama ardente:
Não falia um são a um doente;
Fala-te outro exp’rimentado.
Já servi ao deus do engano.
Forte com forças alheias.
Passei nas suas cadeias
Após um ano outro ano.
Prometeu-me alto favor;
Mas sabe, pois que começas.
Que o que tive das promessas
Foram lágrimas e dor.
Não te deixes enganar
Do rosto brando, e sereno:
Tempera em riso o veneno;
Afaga para matar.
Com mil modos atrativos
Chama a cega, e incauta gente:
Lança-lhe dura corrente,
E escarnece dos cativos.
Como trata os infelizes,
Que andou outrora amimando,
Meu peito to está mostrando
Nestas frescas cicatrizes.
Até em cousas de pela
Quer mostrar o seu rigor:
Faz entrar num prosador
A mania de poeta.
Mas esses laços que trazes,
Dom desse deus inimigo,
Talvez que sejam castigo
D’outras prisões, que tu fazes.
Fere a muitos tua mão,
Inda que tanto a reprimes,
E vens a pagar teus crimes
Com pena de Talião.