AO MARQUÊS DA ANGEJA, FAZENDO ANOS A FILHA DO MARQUÊS DE ABRANTES COM QUEM ESTAV...
Senhor, aos florentes anos
Hoje em pompa festejados
Eu devera também ir,
Pois vão convosco criados.
Gosto e obrigação m’o pedem;
Mas vós, hercúleo cadete.
Sabeis a falada história
Do meu antigo colete.
É ele o réu que hoje impede
Devidos respeitos meus;
Não vai a anos alheios,
Pelo delito dos seus.
Foi colete das funções,
Cumpriu seu emprego à risca,
Hoje domésticas leis
O tem condenado à isca.
Sei que devia haver outro;
Mas, senhor, não me culpeis,
Culpai surdos mercadores,
E preguiçosos quartéis.
Ide vós, amor vos manda;
Na ilustre, adorada mão
Ponha a boca respeitosa
Tributos do coração.
Se acaso a austera etiqueta
Impede obséquio tão puro.
Ao cortezão respeitado
Console o esposo futuro.
Fazei em terna linguagem
Mil discretos cumprimentos,
Aqueles que vos inspiram
O dia, e vossos talentos.
Mil brilhantes convidados
Ao cortejo assistirão,
Os amores vão convosco.
As graças já lá estão.
Eu, ancião ex-poeta,
Erguida a testa engelhada.
Ferindo com tortos dedos
A minha lira cansada,
Pedirei ao duro tempo
Com lágrimas d’alegria
Nos deixe raiar cem vezes
Este faustíssimo dia.
E a vós, depois d’outro dia,
Nos lusos fastos marcado,
Da alegria, dos prazeres,
Das virtudes desejado,
Peço continuas funções,
Á porta as seges postadas,
E que eu vá, porque também
Posso já ir co’as criadas.