AO MARQUÊS DA ANGEJA, FAZENDO ANOS A FILHA DO MARQUÊS DE ABRANTES COM QUEM ESTAVA PARA CASAR

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhor, aos florentes anos

Hoje em pompa festejados

Eu devera também ir,

Pois vão convosco criados.

Gosto e obrigação m’o pedem;

Mas vós, hercúleo cadete.

Sabeis a falada história

Do meu antigo colete.

É ele o réu que hoje impede

Devidos respeitos meus;

Não vai a anos alheios,

Pelo delito dos seus.

Foi colete das funções,

Cumpriu seu emprego à risca,

Hoje domésticas leis

O tem condenado à isca.

Sei que devia haver outro;

Mas, senhor, não me culpeis,

Culpai surdos mercadores,

E preguiçosos quartéis.

Ide vós, amor vos manda;

Na ilustre, adorada mão

Ponha a boca respeitosa

Tributos do coração.

Se acaso a austera etiqueta

Impede obséquio tão puro.

Ao cortezão respeitado

Console o esposo futuro.

Fazei em terna linguagem

Mil discretos cumprimentos,

Aqueles que vos inspiram

O dia, e vossos talentos.

Mil brilhantes convidados

Ao cortejo assistirão,

Os amores vão convosco.

As graças já lá estão.

Eu, ancião ex-poeta,

Erguida a testa engelhada.

Ferindo com tortos dedos

A minha lira cansada,

Pedirei ao duro tempo

Com lágrimas d’alegria

Nos deixe raiar cem vezes

Este faustíssimo dia.

E a vós, depois d’outro dia,

Nos lusos fastos marcado,

Da alegria, dos prazeres,

Das virtudes desejado,

Peço continuas funções,

Á porta as seges postadas,

E que eu vá, porque também

Posso já ir co’as criadas.