AO MARQUÊS DE LAVRADIO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Se os versos, que outra hora fiz

Escutastes pronto e atento;

E se aos pés, que abraçar quis,

Achou grato acolhimento

A minha musa infeliz;

Dai-me benignos ouvidos

A outros, em dor traçados,

D’arte, e de enfeite despidos;

Pela verdade ditados,

E a vós, senhor, dirigidos:

Em louvores não os fundo,

Pois sei que sempre os pisastes;

E co’as mais ações confundo

As do tempo, em que tomastes

As rédeas do Novo-Mundo;

Mas se eu disser parte d’elas,

Não me julgueis lisonjeiro:

Que vos poupo em não dizê-las,

Se vedes, que o mundo inteiro

As vai erguendo às estreitas?

Diz que viu a capital

Cheia de pompa e grandeza;

E que a ergueis a lustre tal

D’entre os braços da moleza,

Que é no clima natural;

Que nas mãos, onde se encerra

Alio poder respeitoso.

Mostrastes na nova terra

Ao visinho revoltoso,

Numa a paz, em outra a guerra;

Que ofereceis a vida então

Para a palavra salvar-se,

Que os bons reis não dão em vão;

Ação digna de contar-se

Entre as de Mário, ou Catão:

Que a mão que as quinas volteia,

Justiça ao povo reparte;

E que igualmente meneia,

Ora as bandeiras de Marte,

Ora as balanças de Astreia.

Mas já vossa austeridade

Minha narração reprime;

Ouvis-me contra vontade;

Perdoai, senhor, um crime,

De que foi causa a verdade:

Pois que vos não dão desvelos

Louvores, que presa a gente,

Eu vou, senhor, suspendê-los;

E vou dar-vos novamente

Motivos de merecê-los.

A minha longa fadiga

Já sabeis qual é, senhor;

Levai-me a bem, que a não diga;

Deixai-me poupar a dor

De abrir uma chaga antiga.

Pintar irmãs desgrenhadas

Co’as crianças inocentes

Nos débeis braços alçadas,

E de lágrimas ardentes,

Quase sem fruto, banhadas:

Mostrar-lhe os olhos magoados,

Onde inútil pranto assiste,

Imóveis no chão pregados,

Nutrindo um silencio triste,

Falsa paz dos desgraçados:

Contar-vos, que entre os irmãos.

Diz o bom pai, com ternura,

Que ao céu levantem as mãos;

Que assim se emenda a ventura,

E não com queixumes vãos:

Que é do espírito fraqueza

Perder suspiros no vento;

Que vençam a natureza;

Que façam c’o sofrimento

Honrosa a dura pobreza:

Não lhe ver de dor sinais;

Ter no rosto olhos serenos,

E no peito agudos ais;

Que porque se escutam menos,

Por isso me cortam mais:

Dar-vos uma inteira ideia

Da desgraça minha, e d’eles,

Pintura de pranto cheia;

Se é precisa, é para aqueles,

A quem não dói dor alheia.

As almas tão bem nascidas,

Como a vossa vejo ser,

Para serem condoídas.

Não tem precisão de ver

Correr sangue das feridas:

Sabeis, que sofro a impiedade

De vã fortuna traidora;

Mudai pois de heroicidade;

Vinde pleitear agora

A causa da humanidade:

Por vós tirar não podeis

Penas, que a alma me abafaram;

Mas ante o trono valeis;

E se o cetro vos fiaram,

Que vos negarão os reis?

Reger-lhe os vastos estados,

Ir dar-lhe um novo esplendor.

São feitos famigerados;

Mas inda o será maior

Ir pedir por desgraçados.

Disse a César o orador,

Que os soldados tinham parte

No perigo, e no louvor;

Que fosse em outro estandarte

Ele só o vencedor;

Que era, de doce brandura

O deixar-se então vencer,

Mor vitória, e mais segura;

Onde não tinham poder

Nem ferro, nem má ventura.

Vencei vós sem ter soldados;

Fazei de dias de dor

Dias bem aventurados;

E possa essa mão, senhor,

Mais do que podem meus fados.

Claros avós imitastes,

Que o mundo apenas abrange;

No berço palmas achastes;

Dos heróis que viu o Gange,

O sangue e as ações herdastes:

Remotos povos venceram,

E mares bravos abrindo.

As quinas desenvolveram;

Ante eles o Gange e o Indo

Tintos de sangue corieram.

Vós, que em obras semelhantes

Fostes ser a cópia honrosa

Do que eles fizeram d’antes,

Na serie maravilhosa

Das vossas ações brilhantes:

Consenti, que a larga história,

Que Almeidas levanta aos céus,

Lhes deixe no altar da glória

Pendente, entre os mais troféus,

Uma negra palmatória.