AO MARQUÊS DE LAVRADIO
Se os versos, que outra hora fiz
Escutastes pronto e atento;
E se aos pés, que abraçar quis,
Achou grato acolhimento
A minha musa infeliz;
Dai-me benignos ouvidos
A outros, em dor traçados,
D’arte, e de enfeite despidos;
Pela verdade ditados,
E a vós, senhor, dirigidos:
Em louvores não os fundo,
Pois sei que sempre os pisastes;
E co’as mais ações confundo
As do tempo, em que tomastes
As rédeas do Novo-Mundo;
Mas se eu disser parte d’elas,
Não me julgueis lisonjeiro:
Que vos poupo em não dizê-las,
Se vedes, que o mundo inteiro
As vai erguendo às estreitas?
Diz que viu a capital
Cheia de pompa e grandeza;
E que a ergueis a lustre tal
D’entre os braços da moleza,
Que é no clima natural;
Que nas mãos, onde se encerra
Alio poder respeitoso.
Mostrastes na nova terra
Ao visinho revoltoso,
Numa a paz, em outra a guerra;
Que ofereceis a vida então
Para a palavra salvar-se,
Que os bons reis não dão em vão;
Ação digna de contar-se
Entre as de Mário, ou Catão:
Que a mão que as quinas volteia,
Justiça ao povo reparte;
E que igualmente meneia,
Ora as bandeiras de Marte,
Ora as balanças de Astreia.
Mas já vossa austeridade
Minha narração reprime;
Ouvis-me contra vontade;
Perdoai, senhor, um crime,
De que foi causa a verdade:
Pois que vos não dão desvelos
Louvores, que presa a gente,
Eu vou, senhor, suspendê-los;
E vou dar-vos novamente
Motivos de merecê-los.
A minha longa fadiga
Já sabeis qual é, senhor;
Levai-me a bem, que a não diga;
Deixai-me poupar a dor
De abrir uma chaga antiga.
Pintar irmãs desgrenhadas
Co’as crianças inocentes
Nos débeis braços alçadas,
E de lágrimas ardentes,
Quase sem fruto, banhadas:
Mostrar-lhe os olhos magoados,
Onde inútil pranto assiste,
Imóveis no chão pregados,
Nutrindo um silencio triste,
Falsa paz dos desgraçados:
Contar-vos, que entre os irmãos.
Diz o bom pai, com ternura,
Que ao céu levantem as mãos;
Que assim se emenda a ventura,
E não com queixumes vãos:
Que é do espírito fraqueza
Perder suspiros no vento;
Que vençam a natureza;
Que façam c’o sofrimento
Honrosa a dura pobreza:
Não lhe ver de dor sinais;
Ter no rosto olhos serenos,
E no peito agudos ais;
Que porque se escutam menos,
Por isso me cortam mais:
Dar-vos uma inteira ideia
Da desgraça minha, e d’eles,
Pintura de pranto cheia;
Se é precisa, é para aqueles,
A quem não dói dor alheia.
As almas tão bem nascidas,
Como a vossa vejo ser,
Para serem condoídas.
Não tem precisão de ver
Correr sangue das feridas:
Sabeis, que sofro a impiedade
De vã fortuna traidora;
Mudai pois de heroicidade;
Vinde pleitear agora
A causa da humanidade:
Por vós tirar não podeis
Penas, que a alma me abafaram;
Mas ante o trono valeis;
E se o cetro vos fiaram,
Que vos negarão os reis?
Reger-lhe os vastos estados,
Ir dar-lhe um novo esplendor.
São feitos famigerados;
Mas inda o será maior
Ir pedir por desgraçados.
Disse a César o orador,
Que os soldados tinham parte
No perigo, e no louvor;
Que fosse em outro estandarte
Ele só o vencedor;
Que era, de doce brandura
O deixar-se então vencer,
Mor vitória, e mais segura;
Onde não tinham poder
Nem ferro, nem má ventura.
Vencei vós sem ter soldados;
Fazei de dias de dor
Dias bem aventurados;
E possa essa mão, senhor,
Mais do que podem meus fados.
Claros avós imitastes,
Que o mundo apenas abrange;
No berço palmas achastes;
Dos heróis que viu o Gange,
O sangue e as ações herdastes:
Remotos povos venceram,
E mares bravos abrindo.
As quinas desenvolveram;
Ante eles o Gange e o Indo
Tintos de sangue corieram.
Vós, que em obras semelhantes
Fostes ser a cópia honrosa
Do que eles fizeram d’antes,
Na serie maravilhosa
Das vossas ações brilhantes:
Consenti, que a larga história,
Que Almeidas levanta aos céus,
Lhes deixe no altar da glória
Pendente, entre os mais troféus,
Uma negra palmatória.