AO MARQUÊS, DE PONTE DE LIMA, MINISTRO DE ESTADO, PEDINDO-LHE O AUTOR LICENÇA PA...
Senhor, entreguei meu livro;
Foi esse filho mesquinho
Co’a estéril benção do Pai
Lançar-se aos pés do Padrinho;
Dei-lhe em dote inúteis rimas,
Dei-lhe vazio tesoiro;
Mas vossas mãos milagrosas
Convertem nadas em ouro;
Do mal fadado Parnaso
Quebrareis o injusto encanto;
Nem sempre seus verdes loiros
Serão regados com pranto;
Impertinentes credores
Largar-me-ão enfim a rua;
O meu cego abrindo a boca
Lhes há de fechar a sua;
Até apertados gênios
Sem vontade comprarão;
Farão focinho à Poesia,
E obséquios à Proteção;
Mas, Senhor, de livro basta;
É insulto às mãos em que anda
Passar de ser o meu livro
A ser a minha demanda;
Foi esse meu rogo ouvido;
Deixai que para outro mude;
Tem objeto inda mais alto,
É mais do que oiro, é saúde;
Contra o mal que me tem feito
Raivosos Caniculares
Me oferece a fresca Ericeira
Seus claros, sadios mares;
Sei que nestas ondas bravas
O banho um risco teria;
Posso começá-lo ali,
E ir acabá-lo à Bahia;
Bramindo na vasta praia
Enrolada vaga forte,
Dentro do pérfido seio
Me traz a saúde, e a morte;
Mas com protetor penedo,
E cauto marujo amigo,
O impune, tônico susto,
Torna em remédio o perigo;
Falta só licença vossa,
E juro, Senhor, que vem;
Como podeis Vós negá-la,
Se sabeis que ela é um bem?
É o Pindo o meu tesouro,
O Oceano é meu Jordão;
D’ambos recebo mil bens,
Mas todos por vossa mão;
Eu a beijo; ela receba
Gratidão devida, e pura
Em tributo que lhe paga
O Criado, e a Criatura.