AO MARQUÊS, DE PONTE DE LIMA, MINISTRO DE ESTADO, PEDINDO-LHE O AUTOR LICENÇA PA...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhor, entreguei meu livro;

Foi esse filho mesquinho

Co’a estéril benção do Pai

Lançar-se aos pés do Padrinho;

Dei-lhe em dote inúteis rimas,

Dei-lhe vazio tesoiro;

Mas vossas mãos milagrosas

Convertem nadas em ouro;

Do mal fadado Parnaso

Quebrareis o injusto encanto;

Nem sempre seus verdes loiros

Serão regados com pranto;

Impertinentes credores

Largar-me-ão enfim a rua;

O meu cego abrindo a boca

Lhes há de fechar a sua;

Até apertados gênios

Sem vontade comprarão;

Farão focinho à Poesia,

E obséquios à Proteção;

Mas, Senhor, de livro basta;

É insulto às mãos em que anda

Passar de ser o meu livro

A ser a minha demanda;

Foi esse meu rogo ouvido;

Deixai que para outro mude;

Tem objeto inda mais alto,

É mais do que oiro, é saúde;

Contra o mal que me tem feito

Raivosos Caniculares

Me oferece a fresca Ericeira

Seus claros, sadios mares;

Sei que nestas ondas bravas

O banho um risco teria;

Posso começá-lo ali,

E ir acabá-lo à Bahia;

Bramindo na vasta praia

Enrolada vaga forte,

Dentro do pérfido seio

Me traz a saúde, e a morte;

Mas com protetor penedo,

E cauto marujo amigo,

O impune, tônico susto,

Torna em remédio o perigo;

Falta só licença vossa,

E juro, Senhor, que vem;

Como podeis Vós negá-la,

Se sabeis que ela é um bem?

É o Pindo o meu tesouro,

O Oceano é meu Jordão;

D’ambos recebo mil bens,

Mas todos por vossa mão;

Eu a beijo; ela receba

Gratidão devida, e pura

Em tributo que lhe paga

O Criado, e a Criatura.