AO MERGULHÃO CUNHADO DESTE SUGEYTO, QUE ENGANOU AO POETA COM HUMA PROPINA DE COBRE INDO TOMAR O GRAO DE LECENCIADO.
Entre os demais Doutorandos,
que vieram à função,
veio o grande Mergulhão
da casa dos Mergulhandos:
fidalgos tão miserandos
de tronco, e solar tão pobre,
que, porque a pena lhes dobre,
digo, por mais que os acatem,
que são fidalgos, que batem
moeda, porém de cobre.
Achava-me eu na função,
e a puro calar, e ver,
não livrei de ali fazer
terreiro de patacão:
porque vindo o Mergulhão
com a propina, que deu,
m’arremessou no chapéu,
e eu do peso me queimei,
fui logo vê-la, e achei,
que o dinheiro era guinéu.
Enlutado um patacão
de uma resina maldita
mais negra, que a minha dita,
e mais vil, que o Mergulhão:
que causa, ou que ocasião
teria para enlutar-se,
não pode conjeturar-se,
se não é, porque morreu
o pejo, de quem a deu,
a quem deve venerar-se.
Quem se gradua em Sofia,
e dá propina de pobre,
merece um anel de cobre
com pedra de cantaria:
por capelo merecia
um vexame, ou reprensão,
que o cure de patifão,
e em cabeça tão patifa
uns cadilhos de alcatifa
por borla do chapeirão.
Há caso de mais abalo,
que um patife, um mariola
desse em público uma esmola,
a quem podia comprá-lo?
e vendo, que sofro, e calo,
lhe dê tão pouco desvelo,
que não venha agradecê-lo,
a quem comprá-lo podia
não só, mas inda em Sofia
podia também vendê-lo?
Vós, meu Doutor judiciário,
a quem dedico este pleito,
não façais caso do feito,
tanto que o façais sumário:
ele pecou de falsário,
mas sendo falsário, e mau,
e por casta vaganau,
se hão de dar-lhe em relação,
carocha de papelão,
eu cá lha darei de pau.