AO MERGULHÃO CUNHADO DESTE SUGEYTO, QUE ENGANOU AO POETA COM HUMA PROPINA DE COBRE INDO TOMAR O GRAO DE LECENCIADO.

By Gregório de Matos Guerra

Entre os demais Doutorandos,

que vieram à função,

veio o grande Mergulhão

da casa dos Mergulhandos:

fidalgos tão miserandos

de tronco, e solar tão pobre,

que, porque a pena lhes dobre,

digo, por mais que os acatem,

que são fidalgos, que batem

moeda, porém de cobre.

Achava-me eu na função,

e a puro calar, e ver,

não livrei de ali fazer

terreiro de patacão:

porque vindo o Mergulhão

com a propina, que deu,

m’arremessou no chapéu,

e eu do peso me queimei,

fui logo vê-la, e achei,

que o dinheiro era guinéu.

Enlutado um patacão

de uma resina maldita

mais negra, que a minha dita,

e mais vil, que o Mergulhão:

que causa, ou que ocasião

teria para enlutar-se,

não pode conjeturar-se,

se não é, porque morreu

o pejo, de quem a deu,

a quem deve venerar-se.

Quem se gradua em Sofia,

e dá propina de pobre,

merece um anel de cobre

com pedra de cantaria:

por capelo merecia

um vexame, ou reprensão,

que o cure de patifão,

e em cabeça tão patifa

uns cadilhos de alcatifa

por borla do chapeirão.

Há caso de mais abalo,

que um patife, um mariola

desse em público uma esmola,

a quem podia comprá-lo?

e vendo, que sofro, e calo,

lhe dê tão pouco desvelo,

que não venha agradecê-lo,

a quem comprá-lo podia

não só, mas inda em Sofia

podia também vendê-lo?

Vós, meu Doutor judiciário,

a quem dedico este pleito,

não façais caso do feito,

tanto que o façais sumário:

ele pecou de falsário,

mas sendo falsário, e mau,

e por casta vaganau,

se hão de dar-lhe em relação,

carocha de papelão,

eu cá lha darei de pau.