AO MESMO ASSUMPTO.

By Gregório de Matos Guerra

Antes de ser fabricada

do mundo a máquina digna,

já lá na mente divina,

Senhora, estáveis formada:

com que sendo vós criada

então, e depois nascida

(como é cousa bem sabida)

não podíeis, (se esta sois)

na culpa, que foi depois,

nascer, Virgem, comprendida

Entre os nascidos só vós

por privilégio na vida

fostes, Senhora, nascida

isenta da culpa atroz:

mas se Deus (sabemos nós)

que pode tudo, o que quer,

e vos chegou a eleger

para Mãe sua tão alta,

impureza, mancha, ou falta

nunca em vós podia haver.

Louvem-vos os serafins,

que nessa Glória vos vêem,

e todo o mundo também

por todos os fins dos fins:

Potestades, querubins,

e enfim toda a criatura,

que em louvar-vos mais se apura,

confessem, como é razão,

que foi vossa conceição

sacra, rara, limpa, e pura.

O Céu para coroar-vos

estrelas vos oferece,

o sol de luzes vos tece

a gala, com que trajar-vos:

a lua para calçar-vos

dedica o seu arrebol,

e consagra o seu farol,

porque veja o mundo todo,

que brilham mais deste modo

Céu, estrelas, lua, e sol.