AO MESMO AZEVEDO CAYXEYRO DO ENGENHO, QUE SENDO JÁ HOMEM VELHO, E FRACO MACHEAVA...

By Gregório de Matos Guerra

Olha, Barqueiro atrevido,

que em teu perigo te elevas,

que essa mulher, que aí levas,

é casada, e tem marido:

olha, traidor fementido,

que te há de enforcar El-Rei,

porque és de pequena grei,

e dormes c’uma cachorra,

que a seres tu todo porra,

não eras porra de lei.

Com Susana te mangonas,

sem ver tua zarvatana,

que a cona de tal Susana

não é como as outras conas:

e se por mais que te entonas,

não lhe hás de burrar a tromba,

amaina, que o mar não zomba,

arriba, que brama o mar,

e se te queres salvar,

faze água, não dês a bomba.

Ferra, que te vais a pique,

pois sem governo a Nau geme,

e a não governa o teu leme,

por ser curto, e de alfenique:

a um tal galeão se aplique

por timão um mastaréu,

que eu sei, a qualquer boléu

que te dê esse galeão,

te há de saltar o timão

por ser de casta pigmeu.

A quilha dessa Nau zorra

em quinze braças de enxárgua,

e o que uma Nau pede d’água,

pede uma puta de porra:

se heis de pedir, vos socorra

um Barqueiro menos peco

por falta de chocameco,

a que vós não abrangeis,

ante vos não embarqueis,

do que dar co barco seco.

Essa Nau, que é capitaina

fabricada em Cajaíba,

nenhuma tormenta a arriba,

nenhum poder a amaina:

vós sois caravela zaina,

e intentáveis de a render?

boa a íeis vos fazer,

porque quando em fogo arda,

cravando-vos a bombarda

vos há de a pique meter.

Se sois caravela coxa,

saltai, mestre em terra logo,

que para a Nau caga-fogo,

não sois vós o Barbarroxa;

a vossa palavra frouxa,

dispara balas tão frias,

que dessas artilharias

se está zombando a fragata,

e atrás de maior pirata

mija em vossas alcanzias.

Neste mar de amor sereno

sois vós, quando Amor vos mande,

para capitão tão grande

o bota-fogo pequeno

não é o mar tão ameno,

nem tão falto de ondas tortas,

que a força do vento exortas

que não ponha em tais soçobras,

que pois tendes mortas obras,

não vos leve as obras mortas.

Pois vos não pondes conforme

co que vos prego no cabo,

ireis dormir co Diabo

que o Diabo é, que vos dorme,

eu sim, que estou uniforme

com tanto Julho, e Agosto,

e como velho deposto

livre da venérea empresa,

tenho os meus gostos na mesa,

na cama não tenho gosto.