AO MESMO CAPITÃO SENDO ACHADO COM UMA GROCISSIMA NEGRA.

By Gregório de Matos Guerra

Ontem, senhor Capitão,

vos vimos deitar a prancha,

embarcar-vos numa lancha

de gentil navegação:

a lancha era um galeão,

que joga trinta por banda,

grande proa, alta varanda,

tão grande popa, que dar

podia o cu a beijar

a maior urca de Holanda.

Era tão azevichada,

tão luzente, e tão flamante,

que eu cri, que naquele instante,

saiu do porto breada:

estava tão estancada

que se escusava outra frágua

e assim teve grande mágoa

da lancha por ver, que quando

a estáveis calafetando

então fazia mais água.

Vós logo destes à bomba

com tal pressa, e tal afinco,

que a pusestes como um brinco

mais lisa, que uma pitomba:

como a lancha era mazomba,

jogava tanto de quilha,

que tive por maravilha,

não comê-la o mar salgado,

mas vós tínheis, o cuidado,

de lhe ir metendo a cavilha

Desde então toda esta terra

vos fez por aclamação

Capitão de guarnição

não só, mas de mar, e guerra:

eu sei, que o Povo não erra,

nem nisso vos faz mercê,

porque sois soldado, que

podeis capitanear

as charruas d’além-mar,

se são urcas de Guiné.