AO MESMO CRIOLLO, E PELO MESMO CASO.

By Gregório de Matos Guerra

Estou pasmado e absorto,

de que o Logra em qualquer pleito

curasse do seu direito,

e agora cure do torto:

ele fora mui bem morto,

porque outra vez não insista

ir, onde se lhe resista:

mas se noutras ocasiões

requeria execuções,

agora pedirá vista.

Ia o Logra perseguindo

pela rua de São Bento

certo calcanhar bichento,

e ia-lhe a Negra fugindo:

quando a Dafne foi seguindo

Apolo pastor de Admeto:

ela por alto decreto

em Louro transfigurou-se,

e agora desfigurou-se,

ao Logra, que fica em preto.

A Negra sumiu-se, e quem

não sabe na medicina,

que em se perdendo a menina,

se perde o olho também:

andou o Logra mui bem

em perder o olho então,

porque noutra ocasião

saibam, que o Logra acertado

se co’a preta é desgraçado

com a branca é um Cipião.

Dizem as Putas por cá

com rostos muito serenos,

que o Logra cum olho menos

menos as vigiará:

mas quem não afirmará

neste azar, nesta agonia,

que as Putinhas da Bahia

ficam de melhor emprego,

que as guiava um amor cego,

e já agora um torto as guia.

Se é certo, que ele investia

as Damas, que acarretava,

quem com olhos se cegava,

sem olhos o que faria?

agora é, que eu temeria,

que ele me guiasse a Dama,

porque suposto que as chama,

será para a sua estufa,

porque quem fechou a adufa,

trata já de ir para a cama.

O imaginário impio

quis-lhe o vulto reformar,

e em vez de o aperfeiçoar,

botou-lhe a longe o feitio:

saltou-lhe uma lasca em fio,

e no caso que saltasse,

quis Deus, que o olho lascasse,

porque o escultor estulto

ou corresse ao Logra o vulto,

ou de todo o acabasse.

O Imaginário, que há

de todas tantas ventagens,

diz, que é mau para as imagens

o pau de Jacarandá:

mas que outra imagem fará

tão bela, e perfeita, que

sina entre as outras da Sé,

ou que de outro pau, que engenha,

fará um São Miguel, que tenha

o demo do Logra ao pé.

O Logra ficou zarolho,

porque o homem na estacada

lhe deu tão boa pancada,

que foi pancada do olho:

correu logo tanto molho

pela cara, que ao cair,

quem foi ali acudir,

disse, que quando chorava

o Logra, ao olho cantava

“ojos, que lo vieron ir”.

Pelo seu olho gritava,

e quem o não entendia

outra cousa parecia,

que no olho lhe passava:

e demais gente, que estava

na casa atrás do rumor,

vendo o Logra em tanta dor

com o olho fora da cara,

cria, que era, o que o vazara,

prateiro, e não escultor.

Dizem por esta Cidade,

que seu Senhor enfadado

de o ver todo, e desairado

lhe quer dar a Liberdade:

bom fora metê-lo frade

na Arrábida, ou em Buçaco,

onde vestido de saco

dê graças ao Criador,

que em estado o pôs melhor

para ser maior velhaco.