AO MESMO CRIOLLO, E PELO MESMO CASO.
Estou pasmado e absorto,
de que o Logra em qualquer pleito
curasse do seu direito,
e agora cure do torto:
ele fora mui bem morto,
porque outra vez não insista
ir, onde se lhe resista:
mas se noutras ocasiões
requeria execuções,
agora pedirá vista.
Ia o Logra perseguindo
pela rua de São Bento
certo calcanhar bichento,
e ia-lhe a Negra fugindo:
quando a Dafne foi seguindo
Apolo pastor de Admeto:
ela por alto decreto
em Louro transfigurou-se,
e agora desfigurou-se,
ao Logra, que fica em preto.
A Negra sumiu-se, e quem
não sabe na medicina,
que em se perdendo a menina,
se perde o olho também:
andou o Logra mui bem
em perder o olho então,
porque noutra ocasião
saibam, que o Logra acertado
se co’a preta é desgraçado
com a branca é um Cipião.
Dizem as Putas por cá
com rostos muito serenos,
que o Logra cum olho menos
menos as vigiará:
mas quem não afirmará
neste azar, nesta agonia,
que as Putinhas da Bahia
ficam de melhor emprego,
que as guiava um amor cego,
e já agora um torto as guia.
Se é certo, que ele investia
as Damas, que acarretava,
quem com olhos se cegava,
sem olhos o que faria?
agora é, que eu temeria,
que ele me guiasse a Dama,
porque suposto que as chama,
será para a sua estufa,
porque quem fechou a adufa,
trata já de ir para a cama.
O imaginário impio
quis-lhe o vulto reformar,
e em vez de o aperfeiçoar,
botou-lhe a longe o feitio:
saltou-lhe uma lasca em fio,
e no caso que saltasse,
quis Deus, que o olho lascasse,
porque o escultor estulto
ou corresse ao Logra o vulto,
ou de todo o acabasse.
O Imaginário, que há
de todas tantas ventagens,
diz, que é mau para as imagens
o pau de Jacarandá:
mas que outra imagem fará
tão bela, e perfeita, que
sina entre as outras da Sé,
ou que de outro pau, que engenha,
fará um São Miguel, que tenha
o demo do Logra ao pé.
O Logra ficou zarolho,
porque o homem na estacada
lhe deu tão boa pancada,
que foi pancada do olho:
correu logo tanto molho
pela cara, que ao cair,
quem foi ali acudir,
disse, que quando chorava
o Logra, ao olho cantava
“ojos, que lo vieron ir”.
Pelo seu olho gritava,
e quem o não entendia
outra cousa parecia,
que no olho lhe passava:
e demais gente, que estava
na casa atrás do rumor,
vendo o Logra em tanta dor
com o olho fora da cara,
cria, que era, o que o vazara,
prateiro, e não escultor.
Dizem por esta Cidade,
que seu Senhor enfadado
de o ver todo, e desairado
lhe quer dar a Liberdade:
bom fora metê-lo frade
na Arrábida, ou em Buçaco,
onde vestido de saco
dê graças ao Criador,
que em estado o pôs melhor
para ser maior velhaco.