AO MESMO LETRADO MORDENDO, E ABOCCANHANDO AS LETRAS DO POETA; E ELLE LHE AMEAÇA SEUS ATREVIMENTOS.
Vós não quereis, Cutilada,
tomar emenda, e calar,
morrendo andais por levar
outra na outra queixada:
quereis a cara cruzada,
gilvazada a não quereis,
pois tudo conseguireis,
e se a vossa fé vos salva,
no calvário dessa calva
três cruzes postas vereis.
Na capinha, ou no capuz,
tendes a cruz de cristão,
na cara a do mau ladrão,
e inda vos falta outra cruz:
eu vos juro por Jesus,
que por fazer o ternário
por modo extraordinário
à outra vos hei de pôr,
porque do monte Tabor
vades ao monte Calvário.
Ao Pretório ireis levado,
onde a gentinha vulgar
crucifige há de clamar,
e heis de sair condenado:
um negro Simão chamado
será o vosso Cireneu,
e na fôrma do chapéu
um pau vos há de encaixar,
e então vos hão de jogar
o adivinha, quem te deu.
Ireis entre dous Teatinos
vendo o vosso enterramento,
tendo o maior desalento
na cantiga dos Meninos:
que piedosos, e benignos
ora por ele dirão,
e vós nesta ocasião
revirando os bugalhitos,
os Padres serão mosquitos,
e o mais povo confusão.
Irá o porteiro diante
pelo seu papel cantando,
e dirá de quando em quando
justiça a este Bargante:
manda El-Rei, que num instante
se lhe tire fala, e vista,
e se lhe faça com vista;
justiça, que manda El-Rei
fazer a um homem sem lei,
por se meter a legista.
Não heis de então requerer,
e muito menos gritar,
pois por gritos de advogar
ide-vos a padecer:
deitar pleitos a perder
a puros gritos e zurros
botar na terra sussurros,
de que sois grande Doutor
na forca vos hão de pôr
a vós, mais a vossos burros