AO MESMO LETRADO QUE HAVENDO ARTICULADO CONTRA HUMA PARTE EM TOTAL PERJUIZO DE H...

By Gregório de Matos Guerra

Estava o Doutor Gilvaz

à margem da livraria,

cuidando, no que faria,

e estudando, o que não faz:

quando uma parte sagaz

lhe entrou com certas questões,

e ao pagar-lhe das razões

lhe transformou no bofete

a panela em capacete,

e em câmara os camarões.

Uns camarões em panela

era o mimo, e o presente,

que aquela parte insolente

levava ao Doutor cabrela:

ele arremessou-se a ela,

mas mostrou-lhe o seu pecado,

que do ofício de advogado,

em que estriba o seu sustento,

era aquele um provimento

pela Câmara passado.

Porque da Câmara era,

diz a Parte, que o levara,

que reverente o beijara,

e na cabeça o pusera:

que a panela se escorrera,

e da cara mascarada

saíra tal enxurrada,

que o Doutor nesta ocasião

não cegou de privação,

ficou cego de privada.

Deste sucesso infeliz

logo, e a todo o correr

teve notícia a Mulher

por avisos do nariz:

e posto que ver não quis

tal cara com tal salmoura,

viu na cabeleira cara,

que a afeia, e a desdoura,

que adequada a tornara

mais suja, porém mais loura.

Por evitar maior perda,

água água pediu logo,

senão para tanto fogo,

água para tanta merda:

lavou-lhe cabelo, e cerda,

lavou-lhe roupa, e vestido,

e como o tinha sentido,

disse medrosa, a velhaca,

vede vós toda esta caca,

não me cheira bem, Marido.

E porque mais água pede,

ela lhe disse, isto basta,

porque esta merda é de casta,

que se a mais bolem, mais fede:

ide para a rua, e vede

a razão, com que vos move,

na história fazei-vos novo,

mostrai-vos leve na perda,

porque esta merda foi merda,

de que gostou todo o povo.

A Parte andou temerária,

e com sobeja ousadia,

não faria valentia,

mas fez causa necessária:

vós como grande alimária

no pleito lhe dareis perda,

pois um artigo a deserda,

e ela já pode afirmar,

que me inventou deserdar

pela mesma boca merda.

Que era de engenho notório

dá grandíssima suspeita,

pois deixa câmara feita,

o que foi sempre escritório:

mudai logo o consistório

como Letrado de Lampa,

que já hoje o juízo escampa;

mas diz a gente travessa,

que vós fazíeis-lhe a peça,

mas ele amou-vos a trampa.

Quem pôs tal merda em tal capa,

tenho por ponto assentado,

que morrerá excomungado,

se não recorrer ao Papa:

vós sois Fidalgo de chapa

desde o Brasil até Europa,

pois quando a merda vos topa,

tanto fedeis, que ao nariz

do Moço da Câmara ides

a Moço de guarda-roupa.

Se vos não houve respeito

(que é cousa, em que se repara)

nem à cruz da vossa cara,

nem à cruz, que está no peito:

o que presumo, e suspeito,

é, que nunca está seguro

de tanto cabungo impuro

cruzeiro em monturo alçado,

com que o vosso está cagado

por cruz posta em um monturo.

A Parte não andou lerda

em vir com panela cheia,

porque a mim me coube meia

panela com meia merda:

não quis a fortuna esquerda,

que mos dê tão má maré

desigualar-nos, mais que

no sentimento, e respeito,

pois vós tomaste-la a peito,

porém eu dei-lhe c’o pé.

Não temais, que a Parte lusa,

porque leva a mão ganhada,

que se ela fez panelada,

nós faremos garatusa:

ela deu assunto à Musa,

que já dormia, e roncava,

pois quando agora acordava,

viu, que pelo triste caso

té a fonte do Parnaso

com tanta merda inundava.