AO MESMO RETIRANDO-SE HOMIZIADO PARA O CARMO, POR TER NOTICIA DE RODRIGUES BANHA, PARA PRENDER, OS QUE HAVIÃO NA CIDADE COM HABITOS, E FOROS FALSOS.
Treme a Pedro a passarinha,
e tanto teme a prisão,
que o cu lhe cheira a murrão,
e a boca fede a caquinha:
soube, que o decreto vinha,
e antes que o fossem prender,
fugiu logo a bom correr,
pois quando o iam buscar,
tocando o Banha a marchar,
tocou ele a recolher.
Pedralves com falso foro
se vê na realidade,
o foro com falsidade,
com verdade o desaforo:
que agora reze no coro,
é justo, e bem permitido,
e porque tem merecido
por serviços ao selim
não ser do campo rocim,
agora está recolhido.
Que se despache um caixeiro
criado na mercancia
com foro de fidalguia
sem nobreza de Escudeiro!
e que a poder de dinheiro,
e papéis falsificados
se vejam entronizados
tanto mecânico vil,
que na ordem mercantil
são criados dos criados!
O Fidalgo esclarecido
traz de longe a descendência:
mas Fidalgo de influência
sem ter solar conhecido,
é Fidalgo introduzido
enfronhado em fidalguia
e se o fumo da Bahia
a Pedro Fidalgo fez,
fidalgo é da cheminez
dos Padres da companhia.
Ser perfilhado em Milão,
e fidalgo em Portugal,
ter Mulher Oriental,
e cunhado Mergulhão,
haver sido Capitão,
trazer uma cruz ao lado,
haver comido um morgado,
e a fidalgo haver subido,
se contudo está caído,
é já fidalgo estirado.
Quem quer ser bem despachado
a seu Rei serviços faz,
a vida entre as bolas traz
como valente soldado:
mas por serviço comprado,
com as premissas a pares,
e mentiras como os mares
faz ser caso lastimoso,
que, o que deu honra a um Barroso,
o merecesse um Cazares.
Quando hábito se traz
co dinheiro poderoso,
torne outra vez Barroso,
e venha o Doutor Gilvaz:
também nesta conta jaz
Fuão Maciel Teixeira,
Manuel Dias Filgueira,
o Marruás do sertão,
e o Lobato patifão
marido da confeiteira.
Também vai a Escudeiro
Marinículas da praia,
porque para isso se ensaia
a fiúza do dinheiro:
por direito um canastreiro
é homenzarrão de chapa,
mas a cruz, que anda em tal capa,
o faz com maior desonra
sambenitado da honra
porque não é cruz, é aspa.
Que maganos desta laia
patifes de toda a sorte
subam ser homens de porte,
tanto que o pé põem na praia:
ver eu isto me desmaia,
e me faz cair por terra,
que quatro vilões da serra
tenham tão propícia estrela,
que sendo vis em Cabrela
são fidalgos nesta terra.
Esta mãe universal,
esta célebre Bahia,
que a seus peitos toma, e cria,
os que enjeita Portugal:
que ao que nasceu natural
seu Filhote em tenra idade
o mate à necessidade,
porque lhe tem ódio interno!
Oh praza a Deus, que no inferno
se subverta esta cidade.