AO MESMO SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEYRA PEDINDO HUMAS OITAVAS AO POETA, EM TEMPO, EM QUE FAZIA ANNOS CONVALESCENDO DE HUMA GRAVE DOENÇA.

By Gregório de Matos Guerra

Oitavas canto agora por preceito,

Sem que na oitava possa diligente

Louvar as excelências de um sujeito,

Que pode ser em tudo o melhor Lente:

Mas como em mim não pode ser perfeito

O canto, ficará menos cadente

A música de Apolo, e de Talia,

Que não há cantar bem sem melodia.

Se do tempo perfeito o meu compasso

A compasso cantara neste canto,

Não faltara à garganta agora o passo,

E em passos de garganta fora espanto:

Porém se em canto nunca da mão passo

Como posso afinar no canto tanto,

Que me atreva a cantar vossa ciência,

Sem que falte ao compasso na cadência.

Canora a voz tomara, e tão suave,

Que em passos largos, e ecos repetidos

Sonora requintasse aquela clave,

Em que fossem meus ecos esparcidos:

Porém se o vosso nome o canto grave

Eleva suspendendo os mais sentidos,

Com a voz, que formar o meu alento

Chegar posso também ao Firmamento.

Discutindo esse globo de ciências

No mapa desta esfera Americana,

Acho um todo formado de excelências

Maravilha fatal em forma humana:

De modo se une, e formam as essências

Que o natural as graças vos germana:

Mas que muito se vós no largo mundo

Sois da graça, e ciências tão fecundo.

Se emulações tiraram Luzimentos,

Que soube a natureza vincular-vos,

Apolo não perdera os pensamentos,

Temendo-se na empresa de louvar-vos:

Suspende a admiração os vãos intentos

Ao discurso, que emprende realçar-vos,

Que a Musa enfraquecida, a pena leve

Nunca diz, o que sente, no que escreve.

Deixem-se os Gregos já do seu Eliano,

Condenam a silêncio um Xenofonte,

Não louve Alexandria Herodiano,

Que na Bahia tem Timocreonte:

O qual pode ensinar Quintiliano,

Camões, Terêncio, Ênio, Anacreonte,

Platões, Anaximandros, e Musés,

Acusilaus, Priscianos, e a Timéus.

Nos anos climatéricos glorioso

Vosso nome será tão dilatado,

Que suba, onde o decrépito invejoso

O veja nas estrelas colocado:

Sereis novo Planeta luminoso,

E Sol em nova esfera sublimado,

Que, a quem o mundo singular aclama,

Só descansa no céu com ele a fama.

Separar vossas partes, e Louvores

Absurdo fora certo, e averiguado,

Que à grandeza dos orbes superiores

Ninguém pode pôr termo limitado:

Receba o infinito por maiores,

Quem foi por singular ao mundo dado,

Com que as partes publica deste modo,

Quem de todo admirado admira o todo.

Cesse pois em louvar-vos minha pena,

Que impossível será, que sem engano

Presuma, que fazendo esta novena

Vos possa ponderar em todo um ano:

Este novo, e felice, que hoje ordena

O Céu, lograi, Senhor, sem tanto dano,

Porque sejam em vós os mais gloriosos

Aqueles, que vos faltam de invejosos.