AO MESMO VIGARIO GALANTEA O POETA FAZENDO CHISTES DE HUM MIMO, QUE LHE MANDÁRA B...

By Gregório de Matos Guerra

Ao Padre Vigário a flor,

ao pobre Doutor o fruito,

há nisto, que dizer, muito,

e dirá muito o Doutor:

tenho por grande favor,

que a título de compadre

deis, Brites, a flor ao Padre:

mas dando-me o fruito a mim,

o que se me deu assim,

é força, que mais me quadre.

Quadra-me, que o fruito influa,

que uma flor, que eu não queria,

Se dê, a quem principia

e o fruito, a quem continua:

se o fruito faz, que se argua,

que eu sou o dono da planta,

a flor seja tanto, ou quanta,

sempre o dono a quer perdida,

porque pelo chão caída

faz, que o fruito se adianta.

Quem é do fruito Senhor

sabe as Leis d’agricultura,

que todo o fruito assegura,

e despreza toda a flor:

e inda que chamam favor

dar a sua flor a Dama

àquele, por quem se inflama

eu entendo de outro modo,

e ao fruito mais me acomodo,

que honra, e proveito se chama.

Porque na testa vos entre

o mistério, que isto encerra,

quem me dá o fruito da terra,

me pode dar do seu ventre:

e porque se reconcentre

este vaticínio imundo

no vosso peito fecundo,

digo qual bem augureiro,

que quem me deu o primeiro,

me pode dar o segundo.

O Padre andou muito tolo

em vos estimar a flor,

porque era folha o favor,

e o meu todo era miolo:

com meu favor me consolo

de sorte, e tão por inteiro,

que afirmou por derradeiro,

que um favor, e outro suposto,

eu levo de vós o gosto,

e o Padre vigário o cheiro.

Eu do Vigário zombei,

porque vejo, que levou

uma flor, que se murchou,

e eu o fruito vos papei:

este exemplo lhe gravei,

y este desengaño doy

dela dicha, em que me estoy

cantando a su flor ansi,

que ayer maravilla fui,

y oy sombra mia aun no soy.