AO PADRE MANUEL ALVARES CAPELLÃO DA MARAPÉ REMOQUEANDO AO POETA HUMA PORQUE SE N...

By Gregório de Matos Guerra

Não me espanto, que você,

meu Padre, e meu camarada,

me desse a sua cornada

sendo rês de Marapé:

mas o que lhe lembro, é,

que se acaso a carapuça

da sátira se lhe aguça,

e na testa se ajustou,

a chuçada eu não lhe dou,

você se meta na chuça.

E se por estes respeitos

diz, que versos não farei

à pedrada, que eu levei

quando fazia os meus feitos:

agora os dará por feitos,

pois eu de boga arrancada

a uma, e outra pedrada

os faço, à que levei já,

e à que agora você dá,

que é inda maior pedrada.

Era pelo alto serão,

fazia um luar tremendo,

quando eu estava fazendo

ou câmara, ou vereação:

não sei, que notícia então

teve um Moço, um boa-peça,

pôs-se à janela com pressa

tão sem propósito algum,

que quis ter comigo um

quebradeiro de cabeça.

Cum torrão na mão se apresta,

e tirando-o com seu momo

me fez o memento homo,

pondo-me a terra na testa:

fez-me uma pequena fresta,

de que arto Sangue corria,

mas eu disse, quem seria

um Médico tão sem lei,

que primeiro me purguei,

do que levasse a sangria.

Ergui-me com pressa tanta,

que um amigo me gritou,

inda agora se purgou,

tão depressa se levanta?

Sim, Senhor, de que se espanta?

Se este Médico, este tramposo

é médico tão forçoso,

que faz levantar num dia

depois de curso, e sangria

ao doente mais mimoso.

Este caso, e desventura

foi na verdade, contado,

e sendo eu por mim curado,

o Moço me deu a cura:

com uma, e outra brabura

jurei, e prometi, que

lhe daria um pontapé:

mas o Moço acautelado

me deixou calamocado

para servir a você.