AO PADRE MANUEL DOMINGUES LOUREYRO QUE REHUSANDO IR POR CAPELLÃO PARA ANGOLLA POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, FOY AO DEPOIS PREZO, E MALTRATADO, PORQUE RESISTIO AS ORDENS DO MESMO PRELADO.

By Gregório de Matos Guerra

Para esta Angola enviado

vem por força do destino,

um marinheiro ao divino,

ou mariola sagrado:

com ser no monte gerado

o espírito lhe notei,

que com ser besta de lei,

tanto o ser vilão esconde,

que vem da vila do conde

morar na casa d’El-Rei.

Por não querer embarcar

com ousadia sobeja

atado das mãos da Igreja

veio ao braço secular:

a empuxões, e a gritar

deu baque o Padre Loureiro:

riu-se muito o carcereiro,

mas eu muito mais me ri,

pois nunca Loureiro vi

enxertado em Limoeiro.

No argumento, com que vem

da navegação moral,

diz bem, e argumenta mal,

diz mal, e argumenta bem:

porém não cuide ninguém,

que com tanta matinada

deixou de fazer jornada,

porque a sua teima astuta

o pôs de coberta enxuta,

mas mal acondicionada.

O Mestre, ou o capitão

(diz o Padre Fr. Orelo),

que há de levar um capelo,

se não levar capelão:

vinha branco, e negro pão

diz, que no mar fez a guerra,

pois logo sem razão berra,

quando na passada mágoa

trouxe vinho como água,

e farinha como terra.

Com gritos a casa atroa,

e quando o caso distinga,

quer vomitar na moxinga,

antes que cagar na proa:

querer levá-lo a Lisboa

com brandura, e com carinho,

mas o Padre é bebedinho,

e ancorado a porfiar

diz, que não quer navegar

salvo por um mar de vinho.

Aquentou muito a História

sobre outras ações velhacas

ter-lhe aborcado as patacas

o magano do Chicória:

mas sendo a graça notória,

diz o Padre na estacada,

que ficarão a pancada,

quando um, e outro desfeche

se o Loureiro de escabeche,

o Chicória de selada.