AO PROVEDOR DOS AUSENTES, E DA SANTA CASA DO DEZor PEDRO DE UNHÃO CASTELBRANCO, ACHANDO-SE COM O POETA NO SEU RETIRO DA PRAYA GRANDE.

By Gregório de Matos Guerra

Aqui chegou o Doutor,

e basta, que o Doutor diga,

para que explicar consiga,

que chegou o Provedor:

de antinomásia o Senhor,

o nobre, o esclarecido,

já têm todos entendido,

que é aqui o Castelbranco,

a quem o Céu fez tão branco

em sangue, como em apelido.

Chegou a estes areais,

e alegrou-se tanto o monete,

que num, e noutro horizonte

se vêem trêmulos sinais:

a alegria, que no mais

vegetável se entendia,

tanto obrava, tanto urdia,

em todo o tronco valente,

que em Letras do sol ardente

Castelo branco se lia.

O monte escreveu na falda

“aqui chegou o Doutor”

com Letras de branca flor

sobre papel de esmeralda:

o raio do Sol, que escalda,

o ar Largo, a folha breve

tanto o natural reteve,

que por impulso, ou por rogo

em vez de raios de fogo

arrojou campos de neve.

O Sol em seu parto Leito,

onde morre cada dia.

se escondeu de cortesia

talvez, talvez de respeito:

eu observava em meu peito,

que a boa conversação

do nosso Doutor Unhão

mui alta esfera subia:

mas não soube, se seria

de douto, ou de cortesão.

Foi-se levando consigo

nosso gosto, vida, e agrado,

ele diz, que vai forçado,

e eu que por ser inimigo:

tão bem molesta o amigo,

quando se ausenta, e se deixa:

porém será injusta queixa,

a que eu fizer nesta parte,

pois quem forçado se parte,

de inimigo não me deixa.